Claudia Tajes: De onde saíram tantos donos da verdade – e tão violentos?

Foto: divulgação
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É tanto assunto importante a cada dia, que a gente fica até sem jeito de escrever sobre amenidades. Nas chuvas de inverno, por exemplo – aliás, que fim levaram as chuvas e o inverno? –, escrevi metade de uma coluna sobre a necessidade urgente de se exigir carteira de motorista para quem empunha um guarda-chuva. Na ocasião, era um tema de utilidade pública. Andando pelo centro da cidade, vi cenas de barbárie do tipo: senhoras levando junto com suas sombrinhas a peruca dos carecas, senhores colocando em risco os olhos dos transeuntes, moças com guarda-chuvas gigantes expulsando das marquises os desprotegidos que ali tentavam não se molhar. Foi preciso praticar a caminhada defensiva para chegar ao destino naquela manhã. Mas então denúncias pesadas, salários atrasados ou algum acontecimento triste, nem lembro qual, mudaram a minha pauta. Deixei os guarda-chuvas para o ano que vem. Até porque sumiram as chuvas e o inverno.

Agora mesmo ia escrever sobre o primeiro sinal de que a primavera está chegando: as alergias. Já reparou no que tem de gente espirrando por aí? À medida que as flores aparecem e o pólen entra em contato com as mucosas respiratórias dos portadores de rinite, a sinfonia começa. O coral. O jogral. Espirro é diversidade. Tem os que saem quase sem som, tímidos, para não incomodar. Tem os que saem com a força de um furacão, aos gritos, pouco se importando se estão na intimidade do lar ou em um concerto no teatro. E tem os espirros engolidos, que querem ser discretos, mas chamam tanta atenção quanto os escandalosos. Trancar o espirro é ouvir, no ato, uma condenação: vai estourar uma veia, vai quebrar uma costela, vai te matar. Não vai, mas é mais saudável expelir o que não nos pertence do que deixar a secreção lá dentro, cozinhando. Já estava com mais de 50 linhas de um tratado sobre espirros quando a exposição do Santander Cultural foi fechada. Quem vai escrever sobre uma mera esternutação (amenidade também é cultura) diante de um rolo desses?

Até bem recentemente, o lema era: se eu não concordo, eu não vejo. De uns tempos para cá, passou a valer outra lógica: se eu não concordo, ninguém vê. É assim que muitas manifestações vem sendo achincalhadas, difamadas e censuradas. Acontece com peças, filmes e até colunas de jornal. O leitor descontente não escreve apenas para opinar contra, ele aproveita para dar lição de moral, ofender e, nos casos mais patológicos, ameaçar. De onde saíram tantos donos da verdade – e tão violentos?
Sobre a exposição do Santander Cultural, uma coisa é certa: fechada, ela foi vista por uma multidão que não caberia nas salas do museu. Imagens das obras – agora proibidas na pudica Porto Alegre – ganharam o mundo em posts, manchetes de jornal, matérias na televisão. De uma entrevistada, acho que porta-voz do grupelho que encabeçou o gritedo a favor da preservação das crianças, animais e afins que estariam sendo maculados: “Não considero que isso seja arte”. Até fui ao perfil da pessoa para ver que capacitações apresentava para emitir um parecer assim definitivo. Nenhuma. Nem escrever direito a cidadã escrevia. Daí fica complicado levar a sério.

Nos dias que se seguiram ao final arbitrário da exposição, a internet, esse lugar que pode ser tão abjeto quanto maravilhoso, virou um catálogo de obras eróticas, entrevistas com professores e estudiosos de arte, comentários inteligentes, tiradas engraçadas e debates de alto nível pró e contra o fechamento. Pessoalmente, e sem ter visto a exposição, escolhi meu lado quando os defensores da moral porto-alegrense começaram a falar em blasfêmia – palavra em desuso desde aproximadamente o século 12 d.C. Vai que, na sequência, eles queiram reativar a roda de tortura e o cinto de castidade. Melhor formar com os hereges enquanto há tempo.

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Notícias de jornal, as duas na mesma página: Irma mata três nos Estados Unidos, Rio Grande do Sul tem 51 mortes violentas no feriadão. Como disse um amigo, ainda bem que no Brasil não existe furacão.

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