Claudia Tajes: de ouvido na vida alheia

Caminhando com pressa pela rua, cabeça baixa, pensamento longe, naquelas de resolver os pepinos o mais rápido possível para voltar logo ao trabalho. A chatice do trajeto, em tese, parecia garantida. Até que, em uma esquina, a voz grave e macia de homem se sobrepõe ao barulho dos carros:

– Sexo é como pudim, tem que saber fazer.

Impossível não ouvir, impossível não olhar. O cidadão era pequeno, para não dizer mirrado, apesar do vozeirão. Usava um guarda-pó azul, vendedor de frutas de uma banca de esquina. Conversava com uma mulher que tinha, no mínimo, três vezes a largura dele. A mulher se mostrava interessada no assunto. Uma moça que passava olhou para o casal, depois para mim. Companhia garantida por alguns metros.

– O que será que isso significa?

– Que não pode deixar desandar, acho.

– Mas desandar em que sentido?

– Bah, daí tem que ver com ele.

A moça foi para o lado dela, eu para o meu. Era preciso continuar caminhando e resolvendo os pepinos o mais rápido possível para voltar logo ao trabalho. De qualquer jeito, a tarde sem grandes perspectivas já estava salva pela mistura de sexo com pudim. Seja lá o que o minúsculo galã da esquina entenda por isso.

00a4fb7cSalta um abacaxi e um conselho amoroso

Uma senhora, bastante preocupada, aconselha-se com outra no banheiro do aeroporto:

– Isso já te aconteceu?

– Claro, é muito comum. É que a pessoa passa muito tempo sentada naquela poltrona apertadinha. Daí acumula.

– E se acumular, eu faço o quê?

– Libera, ora. São apenas gases.

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Achei engraçado. Só até entrar no avião. Nenhuma das duas senhoras estava no voo, mas a liberação de alguém atingiu níveis de calamidade pública. Um a um, os passageiros reclamavam. As aeromoças iam e voltavam pelo corredor apagando as luzes de chamada de comissários. Uma delas botou a culpa em um bebê que chorava – o que foi logo negado pela mãe da criancinha. A coisa começou a ficar divertida, as piadas se sucedendo. O responsável pela situação não se acusou. Lembrei de uma frase do meu pai quando a gente entrava no elevador do prédio imediatamente após algum vizinho ter liberado:

– Respirem fundo para acabar rápido com o maldito.

O jeito foi passar a viagem inteira respirando dentro do casaco. Ou isso ou a saída de emergência.

00a4fb83Coloque sua roupa e bom voo

O guri some pela porta todo arrumadinho, blazer alinhado, para uma entrevista importante de emprego – a primeira da vida. Volta dois minutos depois.

– Ué?

– Achei melhor trocar a camiseta. De repente pega mal essa com um bebê de bigode e Ray-Ban segurando uma metralhadora.

E lá se foi de novo, agora de camiseta branca, tão novinha e luminosa como as esperanças dele.

00a4fb84Procurando emprego? Olho na camiseta

O casal de mãos dadas, olhos nos olhos, aos beijos na fila do banco.

– Ordinária.

– Chinelão.

– Sem-vergonha.

– Bagaceiro.

– Desgraçada.

– Miserável.

E assim continuaram por um bom tempo, enquanto o resto do mundo pagava contas e fazia operações de crédito e débito. Esqueci de dizer que só havia dois caixas funcionando, como é de praxe nos bancos. Eles não se importavam. Até bom que demorasse. Seguiram na fila rindo a cada nova pseudo ofensa, talvez cansados do “meu amor” e “minha paixão” de sempre. Até porque ficava claro que era isso o que significavam um para o outro.

00a4fb85O último romântico?

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