Claudia Tajes: de quem era legal ser amigo

Eu e um amigo imaginário no Jardim de Infância (Foto: arquivo pessoal)
Eu e um amigo imaginário no Jardim de Infância (Foto: arquivo pessoal)

Antes do Facebook, a gente fazia amigos por simpatia, afinidade, admiração – e até por falta de escolha. Lembro de mim no primeiro dia do colégio novo, sem conhecer ninguém, encostada em uma parede, vendo os demais colegas se divertindo tanto – ou assim me parecia. O jeito era encostar em alguma menina tão solitária quanto e começar com ela uma amizade sem graça que durava até as duas se enturmarem com outras gurias. Como é chata a amizade que tem por único objetivo disfarçar a solidão.

Nesse tempo, o dos meus colégios, ainda não havia os conceitos de “populares” e “excluídos”, mas todo mundo sabia de quem era legal ser amigo. E de quem era mico. O mico era todo e qualquer motivo cruel, um colega mais gordinho, alguém que usasse óculos ou que fosse para a aula com roupas meio estranhas – isso que ainda não estávamos no império da Company, a marca por quem todo estudante seria capaz de matar, alguns anos mais tarde. Quando minha mãe foi comprar tênis e, ao invés de voltar com um Bamba branco, chegou em casa com um Conga azul-marinho, tive a certeza de que a minha incipiente vida social estava acabada. De fato, até as amigas mais próximas torceram o nariz para a minha Conga enquanto ela durou. E o pior é que tudo durava muito.

Passar o recreio em um canto era o que de mais assustador podia acontecer no colégio. Durante as aulas disfarçava-se a falta de amigos fingindo um extraordinário interesse pelas Capitanias Hereditárias ou pela reprodução dos poríferos, mas o recreio escancarava a solidão. Enquanto as hordas corriam, jogavam bola e se empurravam pelo pátio, aqui e ali um guri lanchava sozinho. E ainda podia ouvir algum xingamento de passagem, isso quando não levava um tapa ou uma rasteira de graça. O colégio, definitivamente, nunca foi para os fracos.

Para a minha sorte, sempre tive boas notas, o que trazia uma certa imunidade contra o escárnio. Muitas vezes troquei a minha tranquilidade por cola nas provas para os meninos mais vagabundos e salientes, em geral os que incomodavam os tímidos e os quietinhos. Sobreviver é preciso, nem sempre da maneira mais lícita. Mas se os relacionamentos, na infância, podem ser difíceis, nada se compara ao que virá na adolescência. Aí, sim, é que não ter amigos vira uma tragédia.

Foi então que o senhor Mark Zuckerberg resolveu todos os problemas inventando o Facebook – ou se apropriando da ideia, segundo a história. Fez da amizade um commodity, como se diz em economês, produto para o consumo das massas. Depois do Facebook, a amizade virou feijão, soja, milho, café. Perdeu completamente a marca. Basta clicar em “confirmar” e pronto, viramos amigos. Tem a parte boa. É no Facebook que a gente reencontra amigos de infância, se aproxima de pessoas novas e conquista companheiros para sempre. Mesmo que virtualmente.

São muitos os pedidos de amizade a cada dia. Antes eu aceitava todos, como recusar alguém que me quer como amiga? Só que logo começaram os problemas. Quando um recém-adicionado não concorda com alguma coisa, ele se dá ao direito não só de retrucar, mas de ofender. Discordâncias políticas e até futebolísticas valem de impropérios a ameaças. É mais ou menos como era no colégio, esculhambar a diferença, agora via computador. Com uma ressalva. Na escola, quem fazia isso eram os valentões. Hoje são os cagões. Se bem que, no fim das contas, é tudo a mesma coisa.

*

Um programa para os dias frios. Bem na entrada de São Sebastião do Caí, o antiquário do Normélio Brill parece uma porta para outras épocas. Tudo de mais bonito que foi feito em madeira, tem lá. Sem falar nos pequenos objetos – e nas bergamotas. Se não for para enfeitar a casa, é um passeio para enfeitar os olhos.

 

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