Claudia Tajes: “De tédio ninguém pode se queixar no Brasil”

Foto: Pexels
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De uma coisa ninguém pode se queixar no Brasil: de tédio. Por aqui é muito difícil um dia ser igual ao outro, seja por qual motivo for – ruim, no mais das vezes, o que é sempre ótimo para movimentar os meios e as redes. Na política, o que é pode não ser, o que não se quer pode ser e é possível que tudo já tenha mudado até o final dessa frase. Um time consege ser o melhor do país e o pior do mundo de um jogo para o outro. A cotação do dólar é uma surpresa a cada manhã. A única rotina é que é sempre para cima.

Outro que não pode ser acusado de causar tédio é o clima. Agora que parou de chover (toc-toc-toc), acontece de tudo em 24 horas. Tem que levar casaco ao sair de manhã, mas o que fazer com ele no sol do meio-dia? Blusão no calor sempre me traz o cheiro de uma sala de aula na volta do recreio, a criançada suando sem se desfazer da lã, que as mães mandaram não tirar de jeito nenhum. Um cheiro que todo mundo já sentiu na própria pele e que depois vai sentir ao beijar o filho na volta do colégio. Como é bom receber um pequeninho suado e feliz nos braços. Filho, aliás, é um fator antimonotonia pura na vida.

O que pode ser tedioso, muitas vezes, é o trabalho. Ah, como pode. Quando eu trabalhava em propaganda, tremia ao ver a coordenadora com a pilha de textos de rádio para distribuir. Talvez porque ninguém gostasse deles, e porque eu fazia rápido justamente para me livrar da tarefa, eles sempre vinham para mim. O texto de rádio é aquela breve mensagem lida pelos locutores que, sejamos francos, é uma chatice também para quem ouve. A notícia mais quente é interrompida para se apregar as delícias de um salsichão. Às vezes eu passava dias inteiros escrevendo textos de rádio, vários formatos, diferentes mensagens, para a rádio X de um jeito, para a rádio Y de outro. Aos jovens publicitários que, por desventura, estejam sobrecarregados de textos de rádio, a dica de uma velha ex-colega: façam com carinho, porque o público não merece mais ouvir “no aniversário da nossa loja, quem ganha o presente é você”. É muito tédio.

Tédio é o “sentimento de aborrecimento, nojo, desgosto: o tédio dos longos dias de isolamento. Sentimento enfadado provocado pela demora no desenvolvimento de alguma coisa. Sentimento de aversão, de desgosto sem causas aparentes”. Tirando a parte da aversão e do desgosto, as outras acho que dá para enganar. Por exemplo: lendo nessas horas mortas que parecem não fazer sentido. Uma clássica de Mario Quintana: “O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”. Contra a chatice das esperas ou dos finais de semana parados – contanto, é claro, que a gente não tenha 15 anos e os hormônios desesperados para sair –, sempre teremos os livros. Aliás, a temporada das Feiras do Livro agora começa para valer. Mesmo com pouco apoio e poucos recursos, elas são muitas pelo interior. Um alô para a turma de Venâncio Aires, onde estive na semana passada, e um viva para todas as outras Feiras que insistem. E resistem.

O tédio também sai de cena com o 25º Porto Alegre em Cena. Entre as atrações internacionais deste ano, companhias do Chile, França e Alemanha em sessões legendadas. Imperdível é a montagem de Grande Sertão: Veredas, neste sábado e domingo. Mais: Preto, da Companhia Brasileira de Teatro do Paraná, e Pontilhados, de Pernambuco, um passeio a pé por lugares de Porto Alegre onde a vida se entrelaça aos espaços. O Nordeste ainda traz Breguetu e Zambo, também de Pernambuco, e Nossos Mortos, do Ceará. Vai ter Filipe Catto, a Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre, a volta de Pequeno Trabalho para Velhos Palhaços, palestras e shows na programação paralela e as Sessões Malditas, sempre à meia-noite – tomara que ainda tenha ingresso para tanta coisa boa. Tudo aqui em portoalegreemcena.com.
Tédio é para quem quer e teatro é para todos. Nos vemos no Porto Alegre em Cena.

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