Claudia Tajes: Depressão express

Foto: Pexels, reprodução
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A pessoa trabalha o dia inteiro, pega trânsito, quase morre de calor e ainda passa no supermercado antes de chegar em casa. Convenhamos, passar no supermercado é o golpe fatal para matar de cansaço quem labutou o dia inteiro. A interminável espera para que as coitadas das moças da padaria garimpem os mais clarinhos ou mais moreninhos, de acordo com a vontade dos clientes. Uma ideia: um supermercado do Rio separa os cacetinhos (mas jamais peça assim em solo carioca) em duas cestas, a dos mais queimados e a dos branquelas. Facilita a vida da funcionária, e a fila anda mais rápido.

Continuando. A pessoa, embora exausta, em geral arruma o jantar com ou para alguém – ou para alguns, dependendo do tamanho da família. Nenhuma reclamação nisso, coisa boa reunir quem a gente gosta em volta da mesa. Os que moram sozinhos, por experiência própria, muitas vezes trocarão a comida por outra opção, um banho com propriedades de reanimação, uma sessão de ginástica para não parecer que o corpo está se desmanchando depois de tantas horas parado, alguma leitura, uma passeada pelo Facebook. A maioria, em algum momento, ligará a televisão. Foi o que eu fiz na segunda-feira, dia 6. Eis abaixo o que me caiu na cabeça em poucos minutos, tal e qual uma bigorna.

Já preencheram a vaga no STF?

Já preencheram a vaga no STF?

Com a PM do Espírito Santo em greve, bandidos saqueiam lojas, assaltam pessoas, roubam carros e o IML de Vitória não dá conta dos mais de 60 assassinados entre domingo e segunda. Quer dizer, então, que só o que impede a barbárie é saber que a polícia pode (mas não necessariamente vai) aparecer para impedir um crime? Aquela básica noção de civilidade foi mesmo para o inferno? (Desisto de fazer um sanduíche e sento na ponta do sofá.)

A escola municipal Rubem Alves de Mesquita, no Rio de Janeiro, que reproduzia a proposta pedagógica de uma escola portuguesa e tinha alunos felizes e aprovados no final do ano, foi fechada. O novo prefeito não achou importante manter a experiência implantada pelo antecessor. Na reportagem, crianças chorosas e mães desconsoladas contando que os filhos não querem estudar em outro colégio. (E a fome passa de vez.)

Acho que vou me candidatar também

Acho que vou me candidatar também

E então, entre novas notícias desanimadoras (aumento do desemprego, mais crimes, o Trump fazendo de tudo para fechar os Estados Unidos, a Samarco funcionando como se nada tivesse acontecido em Mariana), a cereja do bolo. O ministro careca vai para o lugar de Teori. O ministro ligado a um partido, o ministro aliado da presidência, o ministro com algumas passagens meio estranhas na biografia – mas com notável saber jurídico e obras publicadas, dizem seus defensores. Ainda deve ser sabatinado no Senado, Senado esse presidido por um sujeito que tem o codinome de Índio nas delações da Odebrecht. No STF, o ministro vai julgar Temer, Jucá, Padilha, Renan e grande elenco. Tudo em família.

Ah, se tudo fosse brincadeira

Ah, se tudo fosse brincadeira

Desligo a TV, deito na cama e me cubro até a cabeça. O que era cansaço virou depressão. Então foi para isso que fizeram todo aquele barulho? (À minha volta, no Leblon, onde as panelas um dia bateram com força, só o silêncio.) Uma coisa é certa: amanhã não ligo a televisão. Mas não mesmo.

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