Claudia Tajes: Difícil duas pessoas terem a mesma impressão sobre um filme

Foto: Divulgação/Casa de Cinema
Foto: Divulgação/Casa de Cinema

Enquanto a Liga da Justiça ocupa incontáveis salas de vários cinemas, tem um filme sendo exibido em um único horário de uma solitária salinha – e para não mais do que quinze pessoas, na sessão em que eu fui. Para ser mais específica, é um documentário: No Intenso Agora. Talvez nem dure até o fim de semana da publicação desta coluna e quase dá para entender. Não é fácil enfrentar um esquadrão formado pela Mulher Maravilha, Batman, Aquaman, Flash e até um tal de Cyborg. Em todo o caso, se por acaso No Intenso Agora sobreviver, vale muito a ida ao cinema. É maravilhoso.

O diretor, João Moreira Salles, começa mostrando imagens de um filme amador em que uma criança dá seus primeiros e trôpegos passos. Seria só isso se o olhar dele identificasse na cena um retrato do comportamento de classes: a babá sai rapidamente de quadro para não aparecer no filme da família. João Moreira Salles é rico, muito rico, riquíssimo, mas a gente sabe que existe muita diferença entre a grana de um Joesley, por exemplo, que serve principalmente para comprar o que seja, e a dos ricos raiz, que sempre tiveram dinheiro e não se deslumbram com o que ele pode trazer. João Moreira Salles, filho de banqueiro, é desses últimos.

O filme junta coisas que parecem não conversar, como a viagem da mãe do diretor à China maoísta em 1966, cenas de maio de 68 em Paris – onde os Moreira Salles então moravam, a entrada dos tanques soviéticos na Tchecoeslováquia, o enterro do estudante morto pela ditadura no Brasil. Tudo isso editado em duas horas de cenas de arquivo fala de uma alegria que existia no mundo até na hora de protestar.

No Intenso Agora

No Intenso Agora

Uma alegria que acabou. Éramos poucos na sessão, mas saímos felizes naquela noite de domingo.
Chegando em casa, vi que a Casa de Cinema de Porto Alegre havia lançado uma mostra diferente para comemorar seus 30 anos de vida – e 30 anos fazendo cinema em Porto Alegre é para comemorar muito. É uma mostra no computador de cada um, com 30 filmes e séries de TV liberados em alta definição para assistir de graça. A seleção foi feita pelos quatro sócios da Casa de Cinema, Ana Luiza Azevedo, Giba Assis Brasil, Nora Goulart e Jorge Furtado, que diz: “A ideia é contar 30 anos da história da Casa, das nossas muitas parcerias, dos antigos sócios, dos diretores, atores, artistas, fotógrafos, músicos, produtores e técnicos que fizeram estes filmes”.

A mostra começou com o clássico O Dia em que Dorival Encarou a Guarda, de 1986, filme de José Pedro Goulart e Jorge Furtado baseado no romance de Tabajara Ruas. Entre os 30 títulos que estarão disponíveis, será possível ver _ ou rever – Barbosa, Ilha das Flores, Houve Uma Vez Dois Verões, Antes que o Mundo Acabe, O Homem que Copiava, episódios de séries como Decamerão, Doce de Mãe, Mister Brau e muitos outros. Nesses 30 anos, a Casa de Cinema já produziu 21 longas, 14 médias, 31 curtas e 18 séries com mais de 200 episódios. É quase um caso a ser estudado – e agora a gente pode conferir algumas das razões da longevidade em www.casacinepoa.com.br. A mostra encerra no dia 21 de dezembro, e os filmes e programas ficam disponíveis por uma semana. Em cartaz no computador mais perto de você.

Às vezes recomendo alguns filmes aqui e os leitores que não gostam escrevem me xingando. Dia desses, uma senhora falou que foi com o marido ao cinema e passou noventa minutos com raiva de mim. E mais, disse que jamais aceitaria qualquer sugestão minha. Acho que, para além da política, o cinema é onde as diferenças de olhar mais se acentuam. Difícil duas pessoas terem a mesma impressão sobre um filme. Cada um vê de um jeito, cada um sente de uma forma, cada um entende à sua maneira. Onde João Moreira Salles viu um retrato das classes sociais, a senhora que agora me odeia, quem sabe, veria apenas uma criança aprendendo a andar. E estaria certa. Com tudo isso, cinema é um pouco como aquela piada grosseira de tempos antigos, em que um homem preferia nem chegar perto da Cindy Crawford (eu avisei que eram tempos antigos) se não pudesse contar para os amigos. A gente sai de um filme bom querendo que todo mundo veja também. Liga para os mais próximos, bota no jornal. Pode parecer chatice, mas é apenas, e tão somente, amor.

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