Claudia Tajes: Discordar politicamente faz parte, mas atacar a reputação de uma mulher assassinada e comemorar a morte dela?

Foto: Nath Araújo/Reprodução, Instagram
Foto: Nath Araújo/Reprodução, Instagram

Para chegar aos sábados nas casas e nas bancas, a Revista Donna é impressa muitos dias antes. Logo, os colunistas também entregam seus textos muitos dias antes, o que faz com que evitem – a maioria, ao menos – escrever sobre assuntos muito frescos. Um exemplo: na sexta da outra semana noticiou-se que, na renovação da carteira, todo motorista precisaria fazer 10 horas de aula, além de pagar uma taxa muito maior. Na segunda, o Ministério das Cidades já tinha voltado atrás na decisão que causaria transtorno nos Detrans do país e no bolso das pessoas. Uma coluna sobre as 10 horas de aula já teria nascido morta – e o que pior do que isso pode acontecer a um colunista?
O colunista de revista semanal que vence na vida é aquele que consegue ser genérico sem ser desinteressante. Não é missão simples, mas muitos conseguem, e com brilho. Incontáveis são os textos divinos & maravilhosos sobre o cotidiano, um livro, um filme, uma mãe, uma criança, um amor, um jogo, um sonho, uma viagem – e muito mais. Aqueles textos que qualquer um gostaria de ter escrito, que ficam na cabeça, que a gente recorta e deixa à vista, perto do computador, para servir de inspiração.

Por outro lado, às vezes um acontecimento se torna tema quase que obrigatório e lá está o colunista, que entregou seu texto vários dias antes, parecendo um alienado. Foi como me senti na semana passada ao escrever sobre cinema enquanto o país se chocava com a execução da vereadora Marielle Franco. Como cidadã, fiz a minha parte. Estive na frente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e, apesar de conhecer a vereadora apenas pelos relatos de pessoas engajadas em seus projetos, me senti no direito de chorar por ela e pelo motorista Anderson. Sobre dignidade: impressionantes as entrevistas da mulher do Anderson, uma jovem funcionária pública chamada Ágatha, com salários atrasados e um bebê com problemas de saúde – para cuidar sozinha a partir de agora. Se nos faltar a capacidade de chorar por histórias assim, então foi-se mesmo a tal da humanidade.

Na noite de quarta-feira, enquanto executavam a Marielle, ouvi uma gritaria na frente do meu prédio. Logo pensei em uma tragédia – é só nisso que se fala, é só nisso que se pensa. Naquele momento, eram apenas os torcedores do Flamengo, nas casas e nos bares, comemorando um gol na Libertadores da América. A tragédia viria em seguida, na forma de plantões que interromperam os programas na televisão e no rádio, deixando o Rio de Janeiro estranhamente quieto. As imagens mostraram o que aconteceu na cidade depois do assassinato. Não eram só pobres, pretos, correligionários, feministas, ativistas e militantes esperando pelos corpos da Marielle e do Anderson na Alerj. Todo mundo que se importa com a barbárie estava lá. Naquela tarde, milhares.

Já se sabe que as balas que mataram Marielle e Anderson foram vendidas à Polícia Federal de Brasília em 2006. Até o lote foi identificado. A versão do Ministro da Segurança de que as balas haviam sido roubadas de uma agência dos Correios na Paraíba foi desmentida, ora veja, pelos Correios da Paraíba.

A pressão é grande por uma investigação decente. O jeito é não deixar cair no esquecimento. Não pode cair.
E sobre a indignidade: impressionante as mentiras, nas mais diversas escalas do baixo nível, que logo foram plantadas sobre a Marielle. Discordar politicamente faz parte, mas atacar a reputação de uma mulher assassinada e comemorar a morte dela? Não que surpreenda. Ler os comentários abaixo das notícias – e das colunas – na internet faz a gente ter certeza de que algo deu errado no que alguns ainda insistem em chamar de “civilização”. Talvez só começando de novo, a vida se originando de águas turvas e profundas como foi há bilhões de anos. Qualquer coisa, o Guaíba está aí para repetir a experiência.

Leia mais colunas de Claudia:
:: Claudia Tajes: Usado na hora certa, um palavrão ainda é a válvula de escape mais inofensiva que há
:: Até o homem mais primitivo pode ser sensível
:: Ah, WhatsApp, eu te quero, eu te odeio

Leia mais
Comente

Hot no Donna