Claudia Tajes: Divagações sobre o bom-dia

A moça na saída do avião em Porto Alegre desejava bom dia a cada passageiro que passava. A maioria não olhava e, muito menos, respondia. Lá pelas tantas ela perguntou para o companheiro do lado: Mas será que custa dar bom-dia?.

Não custa. É das poucas coisas, aliás, que não custam mesmo, assim como o boa-tarde e o boa-noite. E o obrigado/a, o por favor e o até a próxima, mesmo que não haja uma próxima. É de graça e faz bem. Por que não usar, então?

O paraíso é na terra | Foto:  arquivo pessoal

O paraíso é na terra | Foto: arquivo pessoal

Posso estar cometendo uma injustiça, mas me parece que o carioca é mais receptivo a um bom-dia. E mais proativo também. Nessa que, até prova em contrário, é a capital mundial dos porteiros – cada prédio, por mais simples que seja, tem sentado na entrada o seu profissional de camisa de gola impecavelmente branca, apesar do calorão -, a gente caminha pelas ruas ouvindo bom-dia. Todos os porteiros dão bom- dia. No começo, estranhei. A velha noção de só falar com quem a gente conhece às vezes inibe até a responder a um cumprimento. Hoje, não só respondo, como ainda me exibo: bom dia, tudo bem com você?

Tudo é imensidão na Chapada Diamantina | Foto:  arquivo pessoal

Tudo é imensidão na Chapada Diamantina | Foto: arquivo pessoal

Quem também não dispensa um bom-dia bem dado são os velhinhos. No meu bairro, eles são muitos, e de bengala, andador ou cadeira de rodas pela rua. Ajuda a topografia plana, que convida a sair de casa – apesar do calorão. Com tantas pessoas de idade, o Rio é também a capital mundial das cuidadoras. A praça da esquina fica cheia delas passeando com os bem idosos. Na contramão, uma frota de carrinhos de bebês empurrados pelas babás. Mais uma prova de que, no comecinho da vida ou indo para o fim, os humanos ficam muito parecidos.

Lugar nenhum se esconde do sol | Foto:  arquivo pessoal

Lugar nenhum se esconde do sol | Foto: arquivo pessoal

Já em Porto Alegre, na última vez em que estive na cidade, dei bom-dia para uma moça que cruzou por mim na calçada. Ela segurou a bolsa firme e apressou o passo. Tomara que não tenha sido nada pessoal, só precaução nesses tempos inseguros que vivemos. Mas que me doeu aquele bom-dia sem resposta na rua vazia, ah, doeu. Bom dia para todos e até a semana que vem.

Verde que te quero cada vez mais verde - até em p&b | Foto:  arquivo pessoal

Verde que te quero cada vez mais verde – até em p&b | Foto: arquivo pessoal

Da série “é por isso que os gringos enlouquecem no Brasil”. As fotos da página são de uma viagem à Chapada Diamantina, no interior da Bahia. Até em preto e branco a natureza se mostra colorida. É um país incrível esse nosso, talvez o mais lindo do mundo. Merecia ser mais cuidado – em todos os sentidos. Uma coisa é certa: se o Trump não nos quiser por lá, não vai faltar lugar para visitar aqui.

Confira outras colunas de Claudia Tajes

:: Depressão express
:: Uma flor de dama
:: Perdendo o controle

As últimas do Donna
Comente

Hot no Donna