Claudia Tajes: É urgente ver a Amazônia de perto antes que vire história

Foto: Theo Tajes
Foto: Theo Tajes

Porque não se sabe quanto tempo ela vai durar do jeito que é hoje, sem que o bicho mais prejudicial ao meio ambiente – da espécie Politicus corruptus – invente uma desculpa furada qualquer para loteá-la ou vendê-la, arrumamos uma trouxinha e saímos de Porto Alegre com uma temperatura de dois graus para o calor escaldante, exuberante e tonteante da floresta Amazônica. Daquelas coisas que a gente pensa: como foi que eu não fiz isso antes?

A vontade era antiga, mas o povo da cidade demora a sair do seu conforto. E olha que, de uns tempos para cá, as atrações da civilização perderam um tanto da graça diante das possibilidades de um mato fechado, de um vulcão, de uma montanha. A natureza pica ainda mais que os mosquitos famintos que a gente encontra quando se aventura por ela. Então, pegamos os poucos dias possíveis e entramos floresta adentro por uma de suas muitas portas, Manaus.

Pessoas que não têm os sentidos desenvolvidos, que não saberão identificar os sinais da selva e que possuem a capacidade de se perder até na Avenida Assis Brasil não devem se arriscar por trilhas que se cruzam e se misturam sem um guia. O nosso se chamava Francisco e nasceu em um povoado a quatro dias de caminhada de onde estávamos. Só árvore, árvore e árvore por todos os lados. Quando parecia que a floresta era sempre igual, aparecia alguma coisa para surpreender os nossos olhos cheios de cidade.

Vimos formigueiros do tamanho de uma casa. Dentro deles, as saúvas noturnas dormiam o sono do meio-dia. Vimos troncos que, cobertos por líquens, nos mostraram de onde veio a estampa camuflada. Vimos árvores desconhecidas: Angelim-Pedra, a madeira mais dura que há, a Copaíba e seu óleo com poderes medicinais, o Breuzeiro e um fluido inflamável que, ao mesmo tempo em que ilumina a noite e afugenta os insetos, pode incendiar meia floresta, o Mulateiro e suas propriedades rejuvenescedoras, um tipo de cipó que armazena água para salvar viajantes perdidos, mas que é praticamente igual a outro que armazena água envenenada. Vimos a cânfora, o quinino, fungos e plantas que deram origem a remédios. Vimos um caminho inteiro de seringueiras já secas, mas ainda com as marcas do homem. E uma grande área sem vegetação no meio do nada? Desmatada para fornecer a areia necessária para a construção da Arena da Amazônia, o gigantesco estádio sem uso construído para alguns poucos jogos da Copa.

Uma preguiça passou acima das nossas cabeças com um preguicinha nas costas. O guia avisou: se ela se assustasse, abandonaria o filhote para sempre. Andamos como se, em vez de folhas e galhos, o chão estivesse coberto por algodão. Em uma reserva de Macacos Barrigudos resgatados de cativeiros ilegais, uma história triste: a única macaca de espécie diferente teve seu companheiro morto pelo chefe do bando e agora é escrava de todos. A não ser quando está cuidando dos filhotes das outras mães, vive sozinha e só se alimenta de sobras. Determinação do chefe, mais musculoso que o Rocky Balboa em seus bons tempos. Até que apareça outro macho capaz de desafiá-lo, quem manda é ele.

A Amazônia também é o território das lendas. Os espíritos estão por toda a floresta, e nosso guia ia nos ensinando a passar por eles. São muitos os rituais para atrair proteção e ganhar coragem. Lá pelos 12 anos, o menino da tribo sateré-mawé é obrigado a enfiar a mão em uma luva de palha cheia de formigas tucundeiras, que têm a picada venenosa mais dolorida que há. Uma picada garante 24 horas de agonia. Dentro da luva, pelo menos duzentas delas fazem a iniciação masculina do indiozinho.

Voltamos para o nosso ponto de partida de canoa pelo rio Negro. Na categoria rolê aquático, Veneza perdeu o posto de primeira do ranking. Já na cidade, a notícia de que uma comissão de 18 deputados ruralistas conseguiu fazer passar para votação na Câmara o PL do Veneno, que vai encher nossa comida de novos agrotóxicos e é criticado por Ministério da Saúde, Ministério do Meio Ambiente, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Fiocruz, Ibama e Instituto do Câncer, entre outros órgãos. Pode uma meia dúzia atuando em causa própria prejudicar um país inteiro? No Brasil, infelizmente, pode. Por isso é tão urgente ver a Amazônia de perto. Porque, do jeito que eles destroem, e como tem sido desde que os primeiros portugueses chegaram aqui, logo, logo tudo – árvores, bichos, riquezas, cultura – será apenas história.

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