Claudia Tajes: Em Porto Alegre, gentileza no trânsito só gera buzinada

Foto: Alexander Joe
Foto: Alexander Joe

Você para o carro para um pedestre na faixa. O que acontece? Toma uma buzinada.
Você dá passagem para outro carro entrar à esquerda. O que acontece? Toma uma buzinada.
Você diminui a velocidade por causa da chuva. O que acontece? Toma uma buzinada.
Você estaciona com o pisca-alerta para a sua avó de 80 anos descer na frente do prédio dela, em algum lugar do Centro, na Assis Brasil, na Nilo Peçanha ou em outra avenida. O que acontece? Toma uma buzinada.
Você é pedestre e resolve ajudar uma pessoa com alguma dificuldade, qualquer que seja, a atravessar uma rua. O que acontece? Toma uma buzinada.

Em Porto Alegre, a frase “gentileza gera gentileza”, que estampas pôsteres e camisetas país a fora, foi adaptada para a realidade local. Aqui, gentileza gera uma buzinada – na melhor das hipóteses. Se o motorista estiver com as guampas tortas MESMO, primeiro ele vai xingar, depois vai ameaçar, então talvez saia do carro para fazer justiça com as próprias mãos. Sendo justiça, nesse caso, um conceito tão equivocado quanto o motorista em questão.

Xinguei muito no trânsito em outras eras. Grunhi ao volante o primeiro palavrão que meu filho quase bebê ouviu – e, claro, saiu repetindo, sem saber do que se tratava, mas com a intuição de que coisa boa não era. Já de tacar o dedo na buzina não posso ser acusada. Deixava o barulho para quando o time ganhasse um campeonato ou jogo importante, mas acho que aí tinha atenuante. E dê-lhe buzina.

É proibido buzinar dentro dos túneis, mas, se o trânsito parar, o pessoal senta o dedo sem piedade. A paciência e a buzina são inversamente proporcionais. Um ditado inglês, se não estou confundindo, diz que ninguém precisaria de mão na buzina se usasse o pé no freio. Verdade absoluta, mas totalmente desprezada em Porto Alegre. Por aqui, se o motorista vê outro carro se atravessando na frente, acelera e manda uma buzinada daquelas de ser ouvida em Canoas.

E a placa que pede respeito aos doentes na frente dos hospitais? Deixa um táxi parar ali para desembarcar um passageiro em hora de movimento que ela será ignorada com toda a solenidade. A buzina no trânsito, muito mais que alerta, virou o instrumento da grosseria dos motoristas. Não só ela, claro. Mais letal que a combinação de manga com leite, só a de trânsito com gentileza.

Agora, com a Copa do Mundo, vem aí a época das buzinas alegres. É isso que se espera, pelo menos. Nada é mais chato do que assistir aos jogos com uma mistura de buzina com corneta apitando no apartamento ao lado. A vuvuzela é xarope, mas antes ela do que aquele silêncio sólido que baixou sobre o país em 2014. Já que a Copa do Mundo importa para tanta gente, que a Seleção justifique a dinheirama que custa e volte campeã para casa. As buzinas estão ansiosas por isso.

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Enquanto isso, em meio ao caos de um voo cancelado por problemas técnicos às seis da manhã, o bom humor do Luiz, funcionário da Gol no Salgado Filho, conseguiu sossegar a ansiedade (e alguma fúria) dos 186 passageiros que não saíram do solo. Para ele e a Katia, do check in, muito obrigada por aquilo que faz tanta falta nos contratempos do tipo – e na vida: a gentileza.

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