Claudia Tajes: Entendeu?

Foto: Pixabay
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Trabalho com uma ótima pessoa que, a cada duas palavras, larga um: entendeu? Ela não diz “Bom dia”, diz “Bom dia, entendeu?”. Isso quando não é mais incisiva: “Entendeu o que eu tô falando?”. Demorei a perceber que não era nada pessoal, embora eu siga me sentindo uma anta a cada “Entendeu o que eu tô falando?” destinado a mim. Há alguns dias, fiz o censo. Ela repetiu “entendeu?” 80 VEZES em 40 minutos. Entendeu o meu drama?

Tinha um agregado da nossa família que encerrava cada frase com um “compreendeste?” ou suas variações: “tás compreendendo?”, “compreendes?” ou o errado e pernóstico “compreendesse?”. Foi minha primeira experiência com essas manias do falar que, imagino, quem tem não sabe que tem – ou não falaria. Outro caso típico é o “né?”. Então, eu passei no supermercado, né?, mas não tinha, né?, o que eu queria, né?, daí não comprei. Né? É! O “né?” é tão comum quanto o “entende?”, mas bem menos autoritário. É quase um pedido de aprovação para o que está sendo contado. Já li que é uma espécie de bengala do falar, a pessoa ganha tempo para organizar o pensamento a cada pausa para um novo “né?”. Nessa mesma linha vem o “ããããã”, tão comum em entrevistas, pronunciamentos e nas ocasiões em que se precisa fazer uso da palavra de improviso.

Ryan Gosling, bom de áudio e visual (Foto: Robyn Beck, AFP)

Ryan Gosling, bom de áudio e visual (Foto: Robyn Beck, AFP)

Falar bem é um dom dos mais lindos da nossa espécie. Não se trata apenas de comunicar alguma coisa, é muito mais do que isto. Há quem seja eloquente, mas totalmente desinteressante nos assuntos. Há os que sabem muito, mas dão sono quando despejam seu conhecimento. Há os pedantes, e são tantos, donos da verdade a discorrer professoralmente sobre política, futebol, cultura, costumes, vida. E há os que não sabem nada, mas não se mixam, falam sobre tudo mesmo assim.

Outro discurso que emocionou: a despedida do Obama. (Foto: Nicholas Kamm, AFP)

Outro discurso que emocionou: a despedida do Obama. (Foto: Nicholas Kamm, AFP)

Fluência, vocabulário, ideias em ordem, informação, segurança, humor, charme. Falar bem é uma operação complexa. O horário eleitoral é sempre um porre porque 99% dos candidatos se expressa de um jeito horrível. Aí, já viu. Onde aparece um mais preparado – muitas vezes não nas propostas, mas na lábia –, se elege. Agora mesmo, na minha TV, o bispo e prefeito do Rio, Crivella, fala sobre a necessidade de aumentar o preço das passagens como quem exorciza um demônio dos brabos. Antes que me convença, mudo de canal. O falar bem usado para o mal não deixa de ser um perigo. Entende?

O Tito e o Jayme em algum dia de uma longa amizade (Foto: arquivo pessoal)

O Tito e o Jayme em algum dia de uma longa amizade (Foto: arquivo pessoal)

O discurso da Meryl Streep no Globo de Ouro 2017 foi muito oportuno nesse momento em que os norte-americanos resolveram trocar a eloquência do Obama pela truculência do Trump. Mas, se tivesse que escolher a fala da noite, ainda ficaria com a do Ryan Gosling, o melhor ator por La La Land. Olha o agradecimento dele ao receber o prêmio: “Enquanto eu estava cantando, dançando, tocando piano e vivendo uma das melhores experiências que já tive em um filme, minha mulher estava criando nossa filha mais velha, estava grávida da nossa segunda e tentando ajudar o irmão dela a lutar contra o câncer. Se ela não tivesse segurado tudo isso para que eu pudesse ter essa experiência, tenho certeza de que outra pessoa estaria aqui no meu lugar hoje. Então, meu amor, obrigado”.

 

Um que falava bem era o Jayme Copstein. Tão bem que muita gente só dormia depois do fim do programa de rádio dele, alta madrugada já. O Jayme foi um dos melhores amigos do meu pai, parceria interrompida em 1995 porque o seu Tito Tajes cometeu a indelicadeza de morrer cedo demais. Acho que era o fim dos anos 1970 quando eles inventaram juntos um jornal de bairro, o Expresso Zona Norte, sonho dos dois jornalistas cascudos do antigo Correio do Povo. Uma edição semanal toda caprichada (o Jayme e o Tito também escreviam muito bem) que teve vida bem curta. Os anunciantes eram poucos e os jornais grandes da cidade proibiram que as bancas da região vendessem o Expresso Zona Norte. Os sócios tomaram um tufo, perderam o que haviam investido e passaram anos pagando dívidas. Já a amizade deles ficou mais forte ainda. Para a família do Jayme, um abraço de duas gerações.

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