Claudia Tajes: Letra bonita é só para agradar professora

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Encontrei dentro de um livro bem antigo um bilhete mais antigo ainda. E escrito por mim. O texto: “Dila, passo aí às duas e deixo a encomenda.”

Duas coisas me chamaram a atenção: nunca conheci nenhuma Dila e nunca entreguei encomendas – que eu me lembre. Se a Dila esperava algo de mim, ficou na saudade. O bilhete não chegou até ela, e a encomenda, qual fosse, certamente não deve ter sido entregue. Só se, na ocasião, eu me dedicava ao ilícito, carregamentos suspeitos e tal, mas disso também não lembro.

O que mais me fascinou no bilhetinho de menos de uma linha, escrito com caneta bic azul em um pedaço de folha de caderno com linhas azuis também, foi a minha letra. Que letra. Toda parelhinha, bem desenhada, gordinha. Fiquei degustando cada uma daquelas poucas palavras com os olhos. Vontade de enquadrar e colocar na parede de honra da casa. É que hoje, por mais que me doa, eu tenho um garrancho.

Junto com tantas perdas ao longo da vida, uma sentida é a capacidade de escrever à mão com letra bonita – ou ao menos legível, o que agora é quase missão impossível. Em um mundo de teclados para todos os lados, muita gente acabou perdendo a mão, sem trocadilho, para traçar as curvas e as retas aprendidas lá no início, nos cadernos de caligrafia. Até ao médicos, famosos pela letra difícil, agora entregam receitas e requisições saídas da impressora. Escrever à mão é coisa do passado.

Letra bonita era uma maneira de agradar a professora e se sobressair na turma. Em geral, as meninas tinham a letra mais caprichada que os guris – e os cadernos mais organizados, e a pasta mais arrumada. Não é preconceito e não sei se mudou, mas no meu colégio, e depois no do meu filho, era assim. Enquanto as gurias se esmeravam para trazer de casa a lição bem feita, com aquela letrinha que hoje, se me cair na frente um caderno, vai me emocionar, os meninos tascavam nas páginas e, pior, nas provas, os mais desleixados garranchos. O garrancho, letra tortuosa e ininteligível, na definição do Aurélio, marcava o estudante. A professora dizia: o Marcos é bom aluno, mas precisa melhorar a letra. As meninas desprezavam: como o Marcos é porco, olha o garrancho dele. Já o Marcos se defendia: quem tem a letra feia é mais inteligente que os outros. A gente ouvia isso e ria, com escárnio.

O meu garrancho, que há alguns anos já era horroroso, atingiu atualmente um nível pior que o do Marcos. Não que a aberração precise vir a público com frequência, surge apenas em uma assinatura, no preenchimento de uma ficha, em um recado – que, com frequência, o destinatário não consegue decifrar. Minha irmã perguntou se um bilhete que deixei para ela podia vir com tecla SAP. Bullying da própria família. Nos autógrafos da Feira do Livro, achei honesto da minha parte pedir desculpas pela minha letra. Ela não está à altura dos meus queridos leitores.

Pois não é que agora uma pesquisa da Universidade de Illinois vem com a história de que a letra é feia porque as pessoas pensam mais rápido do que escrevem, o que seria sinônimo de inteligência? Não sei se acredito. Acho que o Marcos se infiltrou lá para se vingar do desprezo sofrido. Em todo o caso, vou guardar a desculpa na manga para algum uso eventual. De prático mesmo, para resultados evidentes e menos constrangimentos, tomei uma decisão importante: comprei um caderno de caligrafia.

Garranchos, vocês estão com as linhas contadas.

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