Claudia Tajes: Esperanças prosaicas

O problema, talvez, seja esperar demais. A gente sempre começa o ano com as esperanças lá em cima. Aí, com o andar da carruagem, e de tanto levar paulada, as coitadas vão minguando, minguando, minguando. Até que, quando o ano termina, é preciso mandar as pobrezinhas para a chapeação e pintura. Senão elas não resistem.

Paz mundial? Só ver as retrospectivas do ano para ter certeza de que não vai haver paz nenhuma em 2016. Aliás, eu decidi não ver as retrospectivas do ano, programação do tipo Não Vale a Pena Chorar de Novo. Periga matar de vez as esperanças que estão nos aparelhos.

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Por isso é que só espero coisas simples em 2016. Por exemplo, que meus amigos sejam felizes e que os que não são meus amigos fiquem bem também – isso sempre diminui a quantidade de energias negativas que, por ventura, possam ser emitidas.

Que os telefonemas que a gente espera cheguem. Que as compras da internet cheguem. Que as contas cheguem sem tantos aumentos. Que as cobranças indevidas naquela tripa interminável de números das operadoras de celular parem de chegar. Que o rapaz que vai consertar o chuveiro marque a visita – e apareça. Que todo mundo separe o lixo. Que os guarda-chuvas comprados na esquina não virem com o vento antes da próxima esquina. Que as propagandas dos partidos políticos na televisão e no rádio sumam. Que os maus candidatos não se elejam. Que os carros deem sinal de luz para entrar à direita ou à esquerda. Que as pessoas sejam mais importantes que os carros. Que os taxistas baixem o volume do som quando o passageiro embarcar. Que o Uber possa circular. Que o prefeito faça um curso para entender por que Porto Alegre virou, sim, terra de ninguém. E se o governador continuar não pagando salários, que não mande os impostos com o vencimento antecipado. Essa foi de cabo de esquadra, como diziam os antigos.

Que a gasolina e a luz parem de subir. Que os comerciais de rádio sejam menos irritantes. Que não caia um toró depois que a gente tiver feito uma escova caprichada. Que os irmãos se encontrem mais. Que quem ainda tem pai e mãe passe bastante tempo com eles. Que projetos sejam, enfim, concluídos. Que venham os bons filmes, as boas peças, as boas exposições, os bons shows. E que o preço dos ingressos seja mais razoável. Que dê para andar na rua sem ser assaltado. Que dê para andar de carro sem ser sequestrado. Que todos os filhos cheguem sãos e salvos sempre. Que a violência contra as mulheres diminua – terminar, do jeito que a coisa anda, só por milagre. Que a violência diminua – terminar, do jeito que a coisa anda, só por milagre. Que a poluição diminua. Que todo mundo passe de ano. Que ninguém seja demitido. Que ninguém maltrate os bichos. Que as crianças não durmam na rua. Que não falte remédio, hospital e acolhimento para quem precisa. Que o Brasil saia mais forte de tudo isso que está aí. Mas peraí: este já é o terreno das altas expectativas. Melhor colocar os pés no chão outra vez.

Que amores nasçam, sobrevivam, fiquem mais fortes. E no caso dos que terminarem, que tenham sido eternos enquanto duraram.

São com desejos simples como esses que espero chegar ao final de 2016 com as esperanças intactas – porque as coisas aconteceram. E quer saber? Eu acredito que vão acontecer mesmo. Feliz Ano-Novo pra gente.

 

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