Claudia Tajes: O exame médico da piscina

(Marianne Scholze/Arquivo pessoal) Cecília livre como um peixe: acabou o exame médico
(Marianne Scholze/Arquivo pessoal) Cecília livre como um peixe: acabou o exame médico

Sortudo de quem tem uma piscina nesses dias de calorão _ só não vamos chamar de calorão senegalês para não magoar os africanos. Como conta o Carlos Mallmann Neto, atendido há alguns dias em um posto de gasolina por um frentista do Senegal: “Perguntei a ele se lá é tão quente quanto dizem. Respondeu que sim, mas que aqui é pior!”. Voltando ao assunto da piscina, coisa boa ter uma delas. Pode ser no prédio, no clube, em casa, no espaço comunitário, de plástico, pode ser do tamanho de uma bacia. Mas nem sempre elas foram tão acessíveis. Na minha longínqua infância, piscina era no clube _ primeiro a Sogipa, depois o Grêmio, mais tarde o Professor Gaúcho. E o salvo conduto para mergulhar nas águas sempre quentes do tanquinho infantil só vinha após o temido exame médico do clube.

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Agora o pessoal coloca certos produtos na água e a piscina fica em condições de uso por quem quer que seja. Mas quando eu era criança, a gente tinha que enfrentar o exame médico no início da temporada. Não passar nele era quase tão ruim quanto rodar de ano no colégio: significava um mês inteiro sem piscina para tratar de uma micose nos dedos do pé, por exemplo. Enquanto a família aproveitava o domingo na água, o que tinha sido reprovado pelo médico do clube via o programa Sílvio Santos sozinho, na sala abafada de casa. Não se falava em depressão infantil na época, mas certamente esse seria um caso clássico.

O exame médico do clube apavorava a todos. Muita gente não passava por causa de uma feridinha de nada, um machucado feito pela sandália, às vezes. E não adiantava pintar as unhas para disfarçar um fungo de estimação, daqueles que cresciam sem pudor nos sapatos quentes e úmidos do inverno. Pior ainda era a situação dos meninos e adultos, obrigados a baixar o calção para um exame mais detalhado das suas intimidades. Conheço um senhor, já falecido, que nunca conseguiu passar no exame médico do clube por causa de uma micose que já era quase uma tatuagem nas ditas partes pudendas. Se hoje em dia os homens ainda relutam em usar protetor solar, imagino que cuidados com a pele, lá em outro século, não fossem considerados caso de saúde, mas de frescura.

Outro inconveniente do exame era a agenda estreita. Se os pais não pudessem levar a gente no horário em que o médico estava no clube, a piscina ficava para a semana que vem, ou para a outra, ou para quando desse. Podia ser só em fevereiro, o que equivalia a uma desgraça de férias. Sorte tinha quem frequentava o Clube do Médico, na Ponta Grossa. Sempre que chegava alguém sem exame, o porteiro chamava qualquer dos sócios presentes _ todos eram médicos mesmo. O doutor então deixava o pastel e o Minuano Limão de lado por alguns minutos, examinava o recém-chegado, lavava as mãos e voltava para o lanche, a sombra e a água fresca.

E teve também aquela história de terror verídico acontecida há muitos anos em um clube comunitário de Porto Alegre. O gurizão em busca de emoções fortes inventou de colocar o próprio pinto no buraco que faz a sucção da piscina _ e que, para começo de conversa, deveria sempre ter uma tela de proteção para evitar acidentes como os que ainda hoje acontecem com crianças. Óbvio que ficou preso. Quando não deu mais para disfarçar, gritou por socorro. Os bombeiros acabaram quebrando a piscina e o guri foi retirado de maca, com um bloco de concreto na altura da pélvis. A piscina ficou interditada pelo resto da temporada, mas ele se salvou. Só teve que mudar de cidade para escapar da raiva dos vizinhos. Privar a turma da piscina em um verão como o nosso, essa sim foi a grande sacanagem do guri.

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