Claudia Tajes: Exame de sangue

Arte de João Marcelo Osório sobre foto do filme “Drácula”
Arte de João Marcelo Osório sobre foto do filme “Drácula”

Por mais maduro, experimentado e cascudo que se seja, entrar no laboratório com a requisição do exame de sangue sempre exige coragem. Não vai doer, é rápido, não tem mistério. Mas quem não gostaria de ter a mãe segurando a mão nesse momento, como quando a gente era pequena e entrava apavorada na salinha de coleta?

Antes que alguém reclame, um simples exame não se compara ao trabalho que passam aqueles que enfrentam tratamentos dolorosos para doenças sérias, claro que não. É que o assunto aqui é mais leve, a covardia de alguns (muitos?) viventes diante do exame de sangue. Nem sequer uma tragicomédia, nada mais que um filme de terror.

No meu caso, adio a hora até quase a data de a requisição vencer. Em pleno laboratório, já devolvi a senha na minha vez alegando um chamado urgente de trabalho. Sem falar nas outras desculpas que inventei para mim mesma. Puxa, eram 12 horas de jejum e eu só fiz 11 horas e 59 minutos. Ih, precisava ficar três anos sem beber nada de álcool. Bah, minha religião não permite. A desculpa, como se sabe, não precisa fazer sentido.

Não quero dar mau exemplo, mas o medo é mais forte do que eu. Minha mãe não se conformava com tamanha fraqueza, dizia que eu era vil – palavra que já me ofendia antes mesmo de eu saber seu significado. Pior que sentir uma agulhada em mim, só imaginar a ponta do aço entrando na maciez da pele do meu bebê. Jamais consegui levar o filho para tomar vacina, tarefa que ficava com os avós. No teste do pezinho dele, quem chorou e precisou ser contida fui eu.

Mas já que prevenção é tudo, e mesmo com tanta pusilanimidade (ô, palavrinha), nunca deixo de fazer os exames. E lá fui eu para o laboratório no Rio de Janeiro cumprir a obrigação anual. Por alguma razão obscura, a requisição da minha médica de Porto Alegre não foi aceita. Precisei consultar lá. Em lugar dos (já) muitos exames da lista original, o médico carioca imprimiu três páginas de pedidos. Junto com colesterol, glicose e triglicerídeos, todos os metais existentes na terra – e no corpo – e nomes como Antígeno Carcinoembriônico e Alfa Fetoproteína. No total, 68 tipos de análise, número para amolecer as pernas de um covarde.

Terminei vindo para Porto Alegre com a minha requisição de três páginas e foi aqui que, no domingo passado, enfim resolvi fazer os exames. No laboratório vazio, a primeira moça que me atendeu, a Clênia, levou meia hora só para pesquisar quais o convênio cobria. Da lista de 68, 65 cobertos. Até então eu estava, sem trocadilhos, de sangue doce. Não me ocorria que, para fazer todas as análises, fosse necessário coletar um litrão de material. Ledo e Ivo engano.

Eram muitos os frascos à espera na salinha. A Daiane, técnica gentil e trabalhando de bom humor em um domingo que se anunciava cheio de sol, foi em busca das minhas veias para escolher onde entrar com a agulha. Quer dizer, com o escalpe, a conhecida borboleta. Eram muitas análises, então seria melhor assim. Deu-se o primeiro sintoma de medo. Fechei os olhos e sentei.

Não doeu para furar e, enquanto agia, a Daiane ia dizendo que estava tudo bem. Só que a coleta não terminava nunca e um tradicional zumbido nos ouvidos começou a vir das profundezas, primeiro baixinho, depois estridente como um alarme. Então o suador, o enjoo, e tudo ficou preto. Não fossem a Rúbia e a Joice a acudir também, cairia na contramão atrapalhando os frascos.

Acordei em uma maca. A Daiane ainda ficou por um bom tempo comigo, até a volta das funções vitais. As meninas trouxeram bolachinhas e café, tudo para devolver a pressão a um nível aceitável. Ano que vem, eu volto para dar trabalho a elas.

Se passar direitinho nos exames, decidi dar um passo além na luta contra a minha covardia. Vou doar meu O+ em um banco de sangue. Se for para desmaiar nessa hora, que seja para ajudar alguém. E tenho dito.

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