Claudia Tajes: Vergonha alheia e outras expressões

Entre a cruz e a caldeirinha: Javier Bardem ou Cauã Reymond?
Entre a cruz e a caldeirinha: Javier Bardem ou Cauã Reymond?

– Esse não é flor que se cheire.

Ela podia ter dito: “Esse é um pulha”. Ou então: “Esse é um canalha, um larápio, um sem-vergonha, um corrupto, um patife, um mentiroso, um safado”. Mas o jeito que a senhora dos seus 70 e poucos anos achou para se referir ao sujeito que, a se julgar pela ficha corrida exibida na TV, era tudo isso e ainda mais, foi até poética.

Esse não é flor que se cheire.

Minha mãe usava bastante a expressão – e raras vezes se enganava no seu julgamento. Bem verdade que os condenados respondiam por delitos bem mais corriqueiros. Teve o que marcou para consertar a torneira e não apareceu. A que incomodava a vizinhança com suas festinhas. O que dizia ir para o colégio, mas podia ser visto fumando na pracinha na hora da aula. O que tinha uma segunda família – e só a primeira família não sabia. A que não separava o lixo. Não ser flor que se cheire tinha um sentido amplo – e ingênuo. Por mais que fosse desabonador, não impedia que a pessoa, em algum momento, recuperasse a credibilidade. Não ser flor que se cheire era uma sentença dura, mas que deixava no ar uma possibilidade de regeneração.

Outra expressão ouvida em momentos de tensão: “Comigo não tem Gre-Gre pra dizer Gregório”. Parece engraçado, mas não tinha graça alguma quando a mãe dizia isso para encerrar um assunto. Comigo não tem moleza. Comigo o buraco é mais embaixo. Comigo é preto no branco. Essas são as traduções mais atualizadas que me ocorrem para explicar o significado do Gre-Gre e do Gregório. Se o destinatário do enigma entendesse a mensagem, a coisa parava por ali. Do contrário, evoluía para um castigo (ficar sem sobremesa, reclusão no quarto, não sair para brincar, conforme a gravidade da infração) ou até mesmo para uma chinelada. Naquela época, chineladas eram tão comuns quanto o cigarro nos lares brasileiros. Detalhe doloroso: chinelo de mãe não era Havaianas, sempre tinha um saltinho.

Mais uma expressão que eu costumava escutar, essa no relato agoniado de uma avó ou tia: “Estou entre a cruz e a caldeirinha”. Tradução: estou em uma situação de risco ou indecisão. Só o Google para explicar que, na Inquisição, o torturado moribundo ficava com um crucifixo acima da cabeça e uma pequena caldeira de água benta nos pés. O pessoal vai longe em busca de um colorido para enfatizar suas histórias. Estou entre a cruz e a caldeirinha: saio com o Cauã Reymond ou com o Javier Bardem?

E por mais que a tecnologia não pare de evoluir, basta começar a ler um texto sobre uma nova ponte, por exemplo, que lá estará a expressão: “As obras seguem a todo vapor”. Existe o trem bala, mas a medida para a velocidade ainda é a locomotiva a vapor. Preciosismo, eu sei. O que importa é inaugurar. Se vai ser nessa década ou em alguma outra, caso das obras da Copa de Porto Alegre, daí são outros quinhentos.

Outros quinhentos, aliás, é o tipo de expressão que passa de geração a geração e serve como uma luva (essa também é antiga) para vários casos. A origem: no século 13, os nobres da Península Ibérica que se julgassem injuriados processavam seus agressores e exigiam nos tribunais uma indenização de 500 soldos – a moeda de então. Se sofressem nova ofensa, cobrariam outros quinhentos, e assim tantas vezes quantas se achassem no direito. Deixa quieto. Melhor focar no uso da expressão e não dar ideia para o Gilmar Mendes.

Vendo o vídeo da deputada federal que quer desesperadamente ser ministra do Trabalho, ela em uma lancha e no meio de quatro fortões de meia-idade sem camisa – descrevendo assim, parece o trailer de um pornô de baixa qualidade, mas tudo indica ser apenas a letal combinação de muita manguaça, talvez algum outro aditivo e o sol dos trópicos na cabeça –, a sempre atual expressão “vergonha alheia” surge como a única legenda possível. Não é flor que se cheire seria um elogio dos mais gentis. É, o tempo da sutileza ficou mesmo para trás. Só resta chorar as pitangas.

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