Claudia Tajes: “Faz parte do falar dos gaúchos o hábito de engolir o S no final das palavras”

Foto: Pexels
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Quem não comete o, digamos, deslize linguístico, que atire a primeira pedra. Mas haja pedra, porque faz parte do falar de quase todos os gaúchos o peculiar hábito de engolir o S no final das palavras.
Os pão. Os jornal. As pizza. Os juiz. As atriz. Os pila. E por aí vai.

Antes que briguem comigo – porque alguém sempre interrompe a programação normal do seu final de semana para abrir o computador e xingar o colunista –, este não é um texto para incentivar que se fale errado. Longe disso. É mais a saudade de ouvir alguém na fila da padaria pedir: “Me dá três cacetinho dos bem moreninho, por favor”. No Rio de Janeiro, como se sabe, é totalmente desaconselhável pedir cacetinho na padaria. E, para acentuar ainda mais a diferença, os cariocas conjugam direitinho o plural do seu pedido: trêssss pãezinhossss francesessss, porrrr favorrrr.

A respeito de conjugação, cariocas, paulistas e demais povos que falam “você” levam vantagem sobre nós. Eles já nascem sabendo conjugar. Você vem, você vai, você ouve, você entende, você olha, você ri. Tudo fica simples e flui com o “você” na frase. Já o “tu” dá uma trancada. Já reparou como tem gente que diz “tu fizestes”? É estranho, comemos o S dos plurais, mas fazemos questão dele na segunda pessoa do singular. Sem falar em todos os que usam o modo alternativo “tu visse” – ou “tu visses”, para piorar. Bem melhor o bom e velho “tu viu”. Errado por errado, pelo menos é mais pop. Tudo isso sempre reconhecendo a beleza de um “tu” castiço. Deixaste a toalha molhada em cima da cama. Roubaste o meu coração. Recebeste teu salário? (Neste caso, o servidor estadual deverá responder: não, só no fim de julho.) A mãe de uma amiga vivia fazendo a mesma pergunta para o marido, e na frente de quem fosse: “Impressão minha ou soltaste um pum na sala?”. Desculpem o exemplo, foi só para demonstrar que a segunda pessoa do singular, quando bem conjugada, dá uma certa classe até ao impossível.
Voltando aos plurais, a falta do S, às vezes, pode vir associada à palavra “tudo”. As panela tudo. Os guri tudo. As festa tudo. Alguém tem dúvida de que se trata de mais de uma panela, de um guri, de uma festa?

Perguntei ao professor Luís Augusto Fischer a razão desses plurais tão singulares dos porto-alegrenses – e gaúchos, em geral. Por economia, ele disse, e faz sentido. Prova são as tantas palavras que a gente abrevia, refri, churras, chimas, futi, ceva, aníver etc. Mas o Fischer, que morou por mais de um ano em Paris e é casado com a tradutora do francês Julia Simões, observa: não só nós fazemos isso. Entre os franceses, ali, na chincha, nas ruas, no cotidiano, é feio dizer o S do plural. Quem diria que estaríamos em companhia tão ilustrada?

A língua falada é poesia fora dos livro tudo.

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Falando em livros, três novinhos em folha. Meu Livro Violeta reúne dois ótimos contos de um dos mestres de hoje, o inglês Ian McEwan. Quando Ela Era Boa, publicado originalmente em 1967, se passa em 1940 e é o único romance de Philip Roth, que morreu no mês passado, em que a protagonista é uma mulher. De Espaços Abandonados é o terceiro romance de Luisa Geisler, que ganhou o Prêmio Sesc de Literatura aos 19 anos e, desde então, é uma senhora escritora. Só assim para aquecer os dias frios, cinzentos e chuvosos desse recém-começado, mas já interminável, inverno de renguear os cusco tudo.

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