Claudia Tajes: Feriado dá um trabalho e tanto

Foto: Pexels, divulgação
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Nem bem acabou a Páscoa, e com os ovos de chocolate ainda balançando em cima da cabeça dos viventes nas lojas, recebi o primeiro e-mail com o aviso: não esqueça do presente da mamãe.

Para a minha mamãe, por motivo de força muito maior do que a minha vontade, não dou presente desde 2005. Mas as sugestões não param de chegar. Ela vai adorar a bolsa tal, sua mãe merece um colchão novo, a TV que as mães querem ganhar. Todo mundo precisa vender, mas talvez um tempinho entre uma efeméride e outra – não mais que uns dias – trouxesse melhores resultados para quem anuncia. Sobrepor datas dá uma gastura na gente.

Propaganda de carro em um jornal do Rio: comemore o feriado de Tiradentes do jeito certo. Nesse caso, até que faz sentido. Comemore enforcado em uma prestação bem alta. A coisa está tão difícil que o pessoal precisa apelar para argumentos improváveis na busca por consumidores. Não que uma corda no pescoço seja atraente, sob qualquer ponto de vista.

Pré-próximo feriado: Vitor Ramil imperdível no Theatro São Pedro, dia 28 (Foto: Ana Ruth Miranda, divulgação)

Pré-próximo feriado: Vitor Ramil imperdível no Theatro São Pedro, dia 28 (Foto: Ana Ruth Miranda, divulgação)

Fato é que feriado dá um trabalho e tanto. A não ser para a, acho eu, minoria quetem casa na praia, na Serra ou onde for, feriado significa: começar semanas antes a busca por um lugar para ir, reunir uma turma que queira dividir as despesas e, depois de tanto esforço, torcer para que uma tempestade tropical não confine todo mundo dentro de um espaço, em geral, minúsculo. Para os que estão com a grana curta, encontrar uma cama na casa de um amigo torna-se a missão mais importante do universo. Quantos já não enlouqueceram a família diante da possibilidade de não ir para a praia em um feriadão frio e chuvoso?

Leitura para feriados e dias úteis: baita livro

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E para quem fica na cidade? As mães trabalham muito mais quando é feriado na escola. Em tempos de supermercados fechados, o estresse começava na véspera, com a necessidade de deixar a casa abastecida para as boquinhas ociosas. Hoje o problema está resolvido para nós, clientes. Já os coitados dos funcionários do súper quase nunca têm feriado, o que é bem cruel com quem já rala tanto.

Trabalhos seguem precisando ser entregues, fretes devem ser feitos, paredes têm que subir, cabelos imploram por um corte, documentos esperam assinaturas. Todo feriadão traz com ele a angústia do que não ficou resolvido nos míseros dias úteis que o precederam.

Feriado no cinema: um documentário que vale ser visto

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E vem aí o primeiro de maio, o Corpus Christi e muito mais no segundo semestre. 2017 quer que a gente folgue na marra, embora a situação do país. Agora chega de conversa porque a editora da revista já me ligou vinte vezes perguntando se a coluna sai ou não sai. Saiu, mas com a corda no pescoço. Esqueci de dizer que jornalista nunca tem feriado, no máximo, assim como os médicos, alterna os plantões. E não raro, quando um pai ou mãe jornalista ganha alforria nessas datas, os filhos ficam frustrados porque já tinham outros planos. O feriado não nasceu para todos, como tudo nessa vida. Para quem puder aproveitar, parabéns. Só não esqueçam que a segunda-feira está chegando e, com ela, a necessidade de botar o que ficou para trás em dia. Boa semana e boa sorte.

 

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