Claudia Tajes: Filhas costumam ser muito críticas com suas mães

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Vem aí o Dia das Mães, que merecem muitos dias mesmo. Não é fácil ser uma. Por mais alegrias e compensações que se tenha, a responsabilidade de criar outros indivíduos pesa como uma bigorna sempre prestes a nos cair sobre a cabeça. Mãe não pode errar. Se erra, causa aqueles traumas todos que a gente conhece – inclusive na prática. De brinde, ganha a culpa para acompanhá-la, ao menos até que a terapia a liberte.

Esqueci: mães nunca se libertam.

Mãe não pode errar. Meu filho me disse isso há pouco tempo, não como sentença, mas como uma espantada constatação. Lembramos juntos de alguns “erros” meus, gravíssimos na visão infantil dele, coisas que o deixaram azedo por vários dias. Criança braba é pior que adulto brabo, como argumentar com a pequena cabeça dura que se acha coberta de razão? Recordar agora é engraçado. Na hora, quanto sofrimento para ele e para mim.

Pensando na relação com a minha mãe, fui ainda mais impiedosa. É quase regra: filhas costumam ser muito críticas com suas mães. Isso que, lá no início, tudo é encantamento. Não existe ninguém mais divina e maravilhosa. Como são lindas as roupas e os sapatos que ela usa. Nada tem cheiro melhor.

O lugar mais cobiçado de todos é o abraço dela. Ganhar um elogio é ganhar o dia. Eu achava a minha mãe muito mais bonita que a Miss Universo da capa da revista Manchete. Cheguei a entrar em um corpo a corpo com uma menina mais velha que ousou dizer que a minha mãe não era virgem. Eu não sabia o que a palavra significava, mas foi usada para ofender. E ninguém ofende a mãe da gente impunemente.

De repente, descobre-se que há vida fora de casa. E acontece. A mãe da Graça é mais compreensiva. A tia Ruth cozinha muito melhor. A magra e alta vizinha do 801 é mais chique. A mulher do amigo do pai, que é cirurgiã ou astrofísica ou geóloga especializada em vulcões, é mil vezes mais interessante. Assim comparada, a mãe não vence em nenhuma categoria e deixa de ser um modelo a ser seguido. Pelo contrário, vira um modelo ultrapassado a ser evitado.

É preciso amadurecer, quebrar a cara e o coração, quase sempre sair de casa e até ter filhos para fazer as pazes com a imagem da mãe. Azar se ela perdeu a paciência (como não perder?). Se cometeu alguns equívocos de julgamento (quem nunca?). Se era desafinada, se não ligava para moda, se não se importava com política, se lia romances de banca de jornal, se não tinha os mesmos gostos, se não continuou perfeita como parecia quando a filha era pequena. Ou justamente o contrário de tudo isso: se deixou uma eterna sensação de inferioridade pela mulher incrível que é.

Basta viver um pouquinho que a mãe volta a ser o melhor abrigo que há – e não é mole ficar sem ele. Sem falar que foi a mãe, com todas as contradições da vida real, quem ajudou a fazer de nós essas mães espetaculares que hoje somos. Agora é torcer para que as nossas filhas concordem com isso.

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