Claudia Tajes: “Gratidão virou hashtag, coitada”

Foto: Mungam Films, divulgação
Foto: Mungam Films, divulgação

A respeito de tecnologia, disse certa vez um colega de trabalho: é uma palavra prostituta. Verdade. Eram os anos 1990, e a palavra tecnologia estava na moda para definir todo e qualquer produto a ser anunciado. O tênis tinha tecnologia. A comida de cachorro tinha tecnologia. O chinelão de plástico tinha tecnologia. O hambúrger tinha tecnologia. O caldo de carne tinha tecnologia. O sutiã tinha tecnologia, assim como qualquer pirulito que chegasse ao mercado. Tecnologia parecia arroz de festa, estava em todas mesmo que fosse mentira. Passada a febre, a palavra já não é usada tão indiscriminadamente. Para os alimentos industrializados, por exemplo, está reservada a palavra saudável. Ainda que, em grande parte dos casos, nada corresponda menos aos fatos.

Muitas foram as palavras que a gente se acostumou a usar por puro vício, sem função alguma. Colocar – em todas as suas variações – é uma das clássicas. Durante um longo tempo, ninguém falava, todo mundo colocava. Eu gostaria de colocar a minha opinião. Não concordo com o que você colocou. Bem colocado, chefe. Há quem ainda abuse das colocações, políticos encabeçando a lista. Pensando melhor, alguns políticos preferem mesmo é colocar naquele lugar do cidadão, como se viu no último aumento de impostos dos combustíveis. Mas este já é outro assunto.

Uma que ficou vã: gratidão, uma das palavras mais abusadas dos nossos dias. De bonita que era no significado, na grafia e no som, virou hashtag, a coitada.

  • Comendo pastel #gratidão
  • Pôr do sol #gratidão
  • Banho no cachorro #gratidão
  • Férias #gratidão
  • Bomba de chocolate #gratidão

É uma overdose de gratidão. E como observou alguém: pessoal posta #gratidão nas redes sociais, mas não agradece para a moça que entrega o pão na padaria, para a mãe que arruma a casa ou para o motorista que deu passagem. Aí não há hashtag que segure.

Uma expressãozinha que tirava os mal-humorados do sério: a nível de. E como se usava a nível de. Ninguém discutia política, discutia a nível de política. Quanto mais pernóstico o interlocutor, mais a nível de no texto dele. Explicações qualificadas sobre o tema, com as devidas considerações gramaticais e estilísticas, no site sualingua.com.br, do professor Cláudio Moreno – que tratou da infame expressão em um capítulo inteiro.

Falando em pernósticos, menção para os que consideram que tudo precisa ser importantizado. Chato é que, quando alguém fala em importantizar alguma coisa, a vontade que dá é a de ignorar a questão. Bota palavra vã nisso.

Não faz muito, resiliência era palavra obrigatória em qualquer vocabulário moderno. O significado é lindo: a capacidade de enfrentar uma situação difícil sem quebrar, ou de voltar à forma original se for dobrado. Um conceito da física na medida para os problemáticos dias atuais. Mas então #resiliência foi parar no Instagram como legenda para fotos de flor e já viu, mais uma palavra interessante foi queimada pelo mau uso.

Sustentável não fica atrás. A ideia é perfeita, urgente, imprescindível e quantos mais adjetivos forem necessários para entrar na cabeça de todo mundo que é preciso preservar os recursos do planeta. Mas o que tem de gente que prega a sustentabilidade e nem o lixo de casa separa não é bolinho, como diria mamãe.

Ao menos até o fechamento desta edição, a palavra da hora era republicano. As conversas palacianas não são nada republicanas, a distribuição de dinheiro para manter uns e outros no poder não é republicana, certas atitudes governistas ferem os princípios republicanos, e por aí vai. Parece que um dos preceitos republicanos é “saber que o Estado não é uma extensão da família, um clube de amigos, um grupo de companheiros”. Ora, pois, aí que me refiro. Tem palavra mais vã que republicano? Palavras são quase um tamagochi, aquele bichinho virtual que precisava de muito cuidado para continuar vivo. Se não forem bem tratadas, pobrezinhas, elas não resistem. E assim, um belo dia, republicano, gratidão e resiliência vão se encontrar no purgatório da língua. Que descansem em paz.

O tema da revista é o prazer feminino e quero fazer a minha parte proporcionando alguns gemidos para as leitoras – e os leitores – com o Ryan Gosling e o Michael Fassbender ilustrando a coluna. A foto é do filme De Canção em Canção, que é um tanto comprido e um bocado xarope, não que seja ruim. Ainda mais com esses dois em cena.

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:: Reaproveitar é preciso
:: Um amor pode valer milhões
:: Exame de sangue

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