Claudia Tajes: haters ou: gente que ama odiar

A internet tem o seu próprio vocabulário a maior parte dele, em inglês. Prefiro as traduções por sempre me parecer um pouco pedante, ou talvez ingênuo, usar em outra língua aquilo que existe em casa. É minha razão para nunca dar likes nas publicações dos amigos, eu apenas curto. Quando alguém diz que tem followers (=seguidores), minha vontade é parar de seguir. E se o vivente avisa que está fazendo um update (=atualização), não me mobilizo para me atualizar. Importante: com isso não pretendo, de modo algum, passar uma lição de moral em quem prefere usar o inglês. É só gosto pessoal mesmo.

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Mas existem aquelas palavras que ficam imprecisas se traduzidas. Exemplo típico é a nossa saudade, que (a não ser em caso de algum update que eu perdi) segue sem uma versão em toda a sua grandeza nos demais idiomas. Homesickness, em inglês? Manque, em francês? Mi manchi, em italiano? Te echo de menos, em espanhol? Até onde os professores – e, vá lá, a vida – me ensinaram, todas essas expressões têm muito mais o sentido de fazer falta do que de saudade. Coisa que só quem sente consegue entender.

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Muito usada na internet, hater é o tipo da palavra difícil de explicar em português. Se hate, o substantivo, significa ódio, seu derivado, hater, seria o quê? Odiador? O amansa-burro tenta ajudar: inimigo, detrator, oponente, crítico, até algoz aparece. Tudo pesado demais para o que a palavra significa em tempos de redes sociais interativas e opiniáticas. Melhor procurar a tradução no contexto da internet.

00b15b53Em 1948, hater no cinema

Hater, então, é o termo usado para definir pessoas que postam comentários cheios de ódio, sem qualquer filtro ou educação, obviamente protegidas pelo anonimato. Uma olhada pelos comentários das notícias de esporte deixa quem lê de cabelo em pé. É uma violência inexplicável, ou melhor: explicada pela intolerância de quem não aceita o que o outro pensa. Na mesma linha, os comentários sobre política justificam a expressão “vergonha alheia”. E sempre me surpreendo com os e-mails que o Tulio Milman publica na coluna dele. Quanto ódio no coraçãozinho de alguns por causa de uma nota! Nessas horas, fico com o Carlos Drummond de Andrade – por certo depois de tomar um esculacho de um missivista: “Quem gosta de escrever cartas para os jornais não deve ter namorada”.

Até eu, que escrevo sobre essas pequenas coisas da vida que muitos chamam de amenidades, tenho meus haters. Uma delas, inclusive, eu sei quem é. Às vezes, o anonimato se trai pela própria tentativa de forjar o anonimato. Mas sou uma pessoa de sorte. Costumo receber e-mails com nome e sobrenome, mesmo quando eles contêm críticas. Aí, sim, a gente lê, dá espaço e respeita.

Acaba de me ocorrer uma tradução livre para hater: recalcado. E beijinho no ombro – como diria Valesca, a calipígea.

Aproveitando os vinte anos da Bamboletras, simpática livraria da Cidade Baixa que a Lu Vilella mantém com valentia em tempos de livrarias megatudo, três sugestões de leitura. Do jornalista Márcio Pinheiro, Esse tal de Borghettinho, a biografia do homem da gaita em edição caprichada da Belas Letras. Para começar os próprios livros – ou, pelo menos, arriscar as primeiras tentativas, Escreva! Guia de Escrita Criativa, dos professores e escritores Pedro Gonzaga e Jane Tutikian. E para desequilibrar os índices de venda, Simples Assim, da Martha Medeiros, pela L&PM. Todos à venda na Bamboletras e nas demais boas casas do ramo.

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Vai um livro aí?

 

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