Claudia Tajes: Hoje, casais jamais ficariam juntos se dependessem dos Correios para suas juras de amor

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O correio anda arisco e, na impossibilidade de remeter notícias frescas pelo disco, como um dia cantou Chico Buarque, elas seguem pelo jornal. Por carta, a se julgar pelo tempo que tudo anda levando, as notícias seriam do tempo daquelas que a gente (re)lê nas revistas dos consultórios. JK inaugura Brasília. Estados Unidos lançam a Apollo 8. O que toda mulher quer é uma enceradeira Arno.

O que foi que aconteceu? Antes, dizia-se, não havia instituição mais confiável do que os Correios. Mandou, chegou. Era abrir a caixinha que estava tudo lá, as contas (sempre muitas) e as saudades na forma de cartas vindas de tantos lugares, assinadas por um filho, uma irmã, a tia que foi morar fora, o amigo que mudou de cidade. Os Correios eram tão fortes que mataram o cartão de Natal, aquele comprado na papelaria, onde a gente escolhia a mensagem mais ou menos pegajosa de acordo com a intimidade ou a formalidade do destinatário. Ficou tão mais fácil enviar desejos via cartão de Natal dos Correios que o pessoal abandonou a Unicef. Bastava entrar em uma agência e escolher entre os modelos expostos, já autoenvelopados e pré-selados com os melhores votos padronizados de um Feliz Natal e um Próspero Ano-Novo.

Em outros tempos, a nossa correspondência viajava a jato. Hoje, casais jamais ficariam juntos se dependessem dos Correios para suas juras de amor. Um pensaria que foi esquecido pelo outro – e, nessas horas, como se sabe, a fila anda. Já nas agências dos Correios, ela não anda. Já tentou aproveitar o intervalo do meio-dia para despachar uma correspondência? É ideal para quem está de dieta, será impossível almoçar depois. Estive em uma agência na Rua Botafogo com um aviso de retirada que apareceu na caixa de correspondência. Pela caligrafia de quem preencheu o papelzinho, impossível decifrar datas e horários. Na agência, apenas uma moça – atenciosa e solícita – para dar conta de mais de 20 pessoas. Velhinhos e velhinhas esperando de pé na fila comum, embora o atendimento preferencial seja lei. Uma hora e vinte minutos de fila depois, a moça informou que o prazo para retirada havia expirado. Antes de mim, muitos saíram praguejando pela espera e pelas suas solicitações frustradas. Pobre da moça.

A coisa mudou mesmo. Na casa dos meus pais, o carteiro era chamado pelo nome e entrava para tomar um cafezinho. Até os cachorros gostavam dele. Com exceção do pai, era o homem que mais frequentava a família. Hoje moramos em grandes prédios e nem sabemos quem entrega a nossa correspondência. Isso quando entrega. Muita gente anda atrasando o pagamento das contas não por calote, mas porque elas chegam sempre depois do vencimento. Não esperem pelos Correios, paguem pela internet, dizem as operadoras disso e daquilo. Mas como criar esse hábito nas senhoras e nos senhores que passaram a vida com seus boletos na mão?

Simploriamente falando, os Correios faliram pelas sucessivas más administrações políticas e pelas dívidas decorrentes disso. Não é um caso isolado, mas talvez seja o que mais dói. A gente confiava nos Correios. Quando tudo o mais falhava, sabia-se que o Sedex chegaria sem falta. Hoje, quando se pergunta o prazo dele, a resposta é desoladora: em dois dias, mas pode levar até três. Já o preço é de Sedex supersônico.

Agora os Correios anunciam o fechamento de 513 agências e a demissão de 5,3 mil funcionários. É a confirmação da velha máxima: as más notícias sempre chegam. Independentemente de quem entrega.

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Para a Revista Donna, que faz aniversário na mesma semana que eu, vão os parabéns aqui pela coluna – pelo correio, o cartão de aniversário poderia não chegar a tempo. É uma grande alegria fazer parte dessa turma.

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E para Porto Alegre, um presente: entre as várias atrações do Festival Palco Giratório, a carioca (com um amoroso braço gaúcho) Quintal Produções traz Balé Ralé. A peça é baseada nos textos do autor pernambucano Marcelino Freire, que vai conversar com o público na estreia. Dias 16 e 17 de maio, às 19h, no Teatro do Sesc. Hashtag imperdível.

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