Claudia Tajes: Hoje em dia, dá mais trabalho fazer rir, mas a qualidade do humor melhorou muito

Bruno em cena de “5 x Comédia”: o homem que nunca dorme. Foto: Andre Gardenberg/Divulgação
Bruno em cena de “5 x Comédia”: o homem que nunca dorme. Foto: Andre Gardenberg/Divulgação

Nos anos 1990, o gênero chamado de besteirol era sucesso nos palcos e o público se divertia com qualquer piada, por mais pesada que fosse. Aliás: nem havia o debate do politicamente correto na época pré-internet, pré-movimentos sociais e pré-preocupações com as diferenças. Hoje em dia, dá mais trabalho fazer rir, mas, em contrapartida, pode-se dizer que a qualidade do humor melhorou muito.
Foi no cenário do besteirol noventista que a peça 5 x Comédia estreou com textos de, por exemplo, Luis Fernando Verissimo, e um elenco que alternou Diogo Vilela, Pedro Cardoso, Denise Fraga, Andrea Beltrão, Luiz Fernando Guimarães, Debora Bloch, Fernanda Torres, entre outros. A peça ficou mais de cinco anos em cartaz e, em 2016, voltou com autores, atores e temas novos, como o momento exige.

Em entrevista ao jornal O Globo, Hamilton Vaz Pereira – diretor da versão dos anos 1990 e que agora trabalha em dupla com a também diretora Monique Gardenberg – falou sobre a diferença das duas montagens: “Lá atrás a gente achava que o país ia para um caminho legal, positivo, e agora estamos, de novo, diante de uma baixa expectativa, de uma ansiedade geral. Apesar das suas diferenças, os novos textos refletem um ‘que porra é essa, pra onde a gente vai?’”. Pois vamos aos esquetes.

Em Branca de Neve, de Julia Spadaccini, a princesa interpretada por Debora Lamm vive à base de Rivotril e quer deixar de ser princesa – uma mudança de rumo nada fácil. Em Tiadoro Show, de e com Heloisa Périssé, uma motorista de van para senhoras da terceira idade conta seu método antibaixo-astral. Em Madame Scheila, uma consultora de estilo recém-chegada da França encarna a típica brasileira metida a fina que não se adapta ao Brasil. O esquete é escrito e interpretado por Luis Miranda. Em Milho aos Pombos, de Pedro Kosovski, Thalita Carauta é uma aspirante eterna a atriz, com todas as decepções que a espera traz.

No esquete Nana Nenê, de Antonio Prata, uma curiosidade. O personagem de Bruno Mazzeo é um clarinetista com um filho recém-nascido. O bebê nunca dorme, e o pai também não. Na vida de verdade, o Bruno, que já era pai do João, de 12 anos, agora tem gêmeos de nove meses em casa. Atualmente eu trabalho no programa dele. Dependendo da agenda de Joana, a mulher do Bruno, a redação do programa é transferida para a sala da família. Enquanto a equipe discute o destino dos personagens, Bruno pode dar uma espiada nos pequenos. A vida imitou a arte, só que vezes dois.
Voltando à peça. 5 x Comédia já viajou pelo país inteiro e estará no Theatro São Pedro nos próximos dias 21 e 22. Para esquecer um pouco das mazelas do mundo, nem que seja por duas horas. Com graça e – sinal dos tempos – sem alienação.
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Livros, livros. A querida vizinha de página e arrasa-quarteirão Martha Medeiros lançou pela L&PM Quem Diria que Viver Ia Dar Nisso. Não é lindo o final da crônica de mesmo título? “Ontem deparei com uma foto de quando eu era criança, um retrato já meio amarelado pelos anos em que ficou esquecido numa caixa de papelão. Nele estou olhando fixo para a câmera como se, por trás das lentes, estivesse o meu futuro. Uma menininha de pouca idade (quatro, cinco anos) com muita vontade de crescer, mas que, apesar de seu olhar curioso e desafiador, jamais, jamais, jamais imaginaria que viver daria nisso tudo”.
Também são as memórias – mesmo as que não aconteceram – que conduzem o novo livro de Diego Grando, Spoilers, lançado pela Confraria do Vento. Os poemas falam do tempo, das ausências, do que houve e do que não foi, mas existe em forma de palavras. Beleza em cada uma das 126 páginas. Como spoiler, um trecho de Memorabilia V: “(…) Minha avó, seus olhos sem ânsias / pequenos e descaroçados / que encontro no rosto do meu irmão / se a luz é baixa e estamos / bêbados e desacorçoados. / Minha avó e seu silêncio / sua data de nascimento: / seis dígitos – três pares / na senha do banco / da minha mãe.
Quem tem amigos de talento tem tudo. Até uma coluna inteirinha no jornal.

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