Claudia Tajes: Hora da mudança

Caixas espalhadas pelo apartamento inteiro sem que desse para imaginar o que tinha dentro de cada uma. Móveis desmontados por todos os lados, pedaços não identificados de objetos não decifrados, louças que deveriam estar na cozinha e foram parar no banheiro. Depois que os moços terminaram de carregar os últimos volumes, só pude me valer de um dos mais sábios ditados dos pampas para me traduzir diante daquilo tudo: mais perdida do que cusco em dia de mudança.

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Já mudei bastante de endereço ao longo dos anos. Os motivos foram muitos – e nem sempre razoáveis. Se o lugar ficou pequeno ou se, de repente, pareceu uma mansão mal-assombrada. Se o barulho incomodava. Se perdeu a graça. Se a ruazinha, do nada, virou uma quase avenida. Por motivos de separação, incompatibilidade, infantilidade. Olhando para trás, poderia ter mudado menos e feito negócios melhores se controlasse a impaciência e os maus bofes. Mas agora é leitinho derramado e bola para frente, que o caos espera para assumir a forma de alguma coisa próxima a um lar.

 

Eu era assim, fiquei assim: essa é a minha flor

Eu era assim, fiquei assim: essa é a minha flor

 

E as coisas que a gente encontra quando se muda? Fotos perdidas, bilhetes que já tiveram tanto sentido, anotações urgentes que não deram em nada. E chaves. De onde saem tantas chaves? Cartões do Dia das Mães feitos no colégio: guardei todos. Em cada caixa ou gaveta, pelo menos uma moeda. São muitas. Acho que descobri a razão da falta de troco no comércio.

Os brinquedos de guri ainda ocupam várias sacolas. Já fizeram a alegria das gerações que vieram depois e hoje estão sob a administração do Lipe, filho dos meus amigos Luciano e Erlon – a respeito de famílias que não estão nem aí para o retrógrado estatuto do malfadado Eduardo Cunha. A partir de agora, os heróis e robôs remanescentes estarão brincando no Centro Social Padre Pedro Leonardi, da Restinga, que atende mais de 500 crianças e adolescentes e acabou de ser vandalizado por energúmenos que destruíram alimentos e até os trabalhos das crianças. Dá para acreditar em uma coisa assim? Quem também tiver doações para ajudar na reconstrução da ONG pode se informar melhor pelo fone (51) 3250-6617.

Lipe, o herdeiro universal dos brinquedos da casa

Lipe, o herdeiro universal dos brinquedos da casa

De tudo o que a gente tinha em casa, o que exigiu mais cuidado para o transporte não foram os eletrônicos ou os vidros ou as porcelanas ou algum móvel mais delicado. Nosso orgulho é, há dois anos, uma flor que desabrocha nessa época. Começou pequeninha, presente de aniversário em um vaso, e hoje é pura exuberância em uma floreira. Quase fiz um seguro para ela. Cientes do valor do meu maior bem material, meu filho e meu namorado se uniram para paletear a bichinha – que chegou sã e salva ao apartamento novo. Aliás, ai deles se não chegasse.

Mais uma mudança, e essa por uma razão inadiável: a vida. Depois de 22 anos e 360 dias dividindo os mesmos endereços, isso sem contar os nove meses em que ocupamos o mesmo corpo, meu filho e eu estamos seguindo cada um o seu caminho. Lá vai ele morar sozinho. De agora em diante. serei visita – e prometo nunca chegar sem avisar antes. Talvez a minha sensação de cachorro que caiu do caminhão da mudança não seja, enfim, por causa das caixas e da bagunça de uma casa nova. Talvez seja por causa das duas histórias novas. Uma começando da porta para dentro, outra continuando da porta para fora.

E por falar em histórias que começam, enfim o Arthur de Faria lança o seu grande Elis, Uma Biografia Musical, pela Arquipélago – e já à venda pelo mundo. A Mariana Kalil promete levar o Bento (e o Chico, claro) aos autógrafos de Tudo Tem uma Primeira Vez no dia 14, a partir das 18h30,im, na livraria Saraiva do Moinhos Shopping. E o doutor J.J. Camargo faz palestra e depois autografa o livro Do que Você Precisa para Ser Feliz?, edição da L&PM, no dia 13 de outubro, às 19h, no auditório da Santa Casa.

Boas histórias nos esperam

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