Claudia Tajes: Humanidade ao molho de natas

(Adalmir Santos, BD) Floresta Negra e o seu proprietário Fredolino
(Adalmir Santos, BD) Floresta Negra e o seu proprietário Fredolino

A respeito de como o mundo mudou, lembrei há alguns dias de um presente de aniversário de casamento que dei para os meus pais, os dois duríssimos depois que ele teve um infarto e parou de trabalhar. A aposentadoria forçada havia baixado muito o ânimo do pai e o orçamento da mãe, e me pareceu que o casal merecia um agrado. Mas o quê? Aí me ocorreu a ideia de um jantar romântico. Estávamos do meio para o fim dos anos 1980, época em que eu já ganhava um salário um pouquinho melhor. Era a minha oportunidade de patrocinar meus pais pela primeira vez na vida.

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Sabe uma galeria conhecida por seus muitos cabeleireiros na 24 de Outubro, perto da Dr. Timóteo? Havia ali dois restaurantes muito bons, o Floresta Negra, de cozinha alemã, e um português que, se não me engano, levava o nome de O Archote. Procurei pelo Google inteiro e não encontrei sequer um registro para confirmar. Fato é que eu tinha ido uma ou duas vezes ao português e achei que meus pais adorariam jantar ali. Ainda mais com o carrinho de doces que passava assim que o vivente largava os talheres: pastéis de Belém e de Santa Clara, pudim do abade, toucinho do céu e mais uma montoeira de sobremesas que não economizavam nos ovos nem nas calorias.

(Adalmir Santos, BD) Floresta Negra e o seu proprietário Fredolino

(Adalmir Santos, BD) Floresta Negra e o seu proprietário Fredolino

Mas como fazer para viabilizar a coisa? Mandar um cheque em branco, nem pensar. Além da deselegância de deixar os dois saberem o valor do presente, ainda perigava meu pai ter outro infarto se visse o valor. Sem falar que, para ele aceitar a extravagância, precisei mentir que a conta estava paga antecipadamente e que eu perderia o dinheiro, caso eles não fossem. Único argumento capaz de convencer o velho a, na noite seguinte, arrumado e perfumado, embarcar com a minha mãe no fusca azul rumo a O Archote.

 

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Fui antes ao restaurante e expliquei a situação para a senhora – portuguesa, com certeza – que me abriu a porta. A resposta dela: “Seus pais jantam hoje, e amanhã a senhora acerta a conta”.

Aquela senhora não me conhecia, não sabia se eu era uma perigosa 171 de restaurantes, não tinha garantia nenhuma de que eu voltaria para pagar. Mesmo assim, serviu bacalhau ao molho de natas para os meus pais, não poupou os ovos e as calorias do carrinho de sobremesas e ainda ofereceu um vinho como cortesia pelo aniversário de casamento dos clientes. Conta-se que, muito mais tarde, os dois chegaram em casa rindo e se trancaram no quarto pelo resto da noite. Com algumas gargalhadas mais altas da mãe, vez por outra, interrompendo a programação da TV ligada na sala. O que aconteceu lá dentro, nem desconfio. Nada que os filhos precisem saber.

(Arquivo pessoal) Esse casamento fez 33 anos

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Demorou, mas enfim cheguei ao tema da coluna – que não é o jantar, e sim as mudanças do mundo. Há pouco, fui a um restaurante onde vou com alguma regularidade, embora sem a fidelidade que a família dedica ao Sakae’s e ao Atelier das Massas, por exemplo. Na hora de pagar, havia esquecido a carteira. Pois tive que deixar o celular no caixa enquanto pegava um táxi para buscar em casa o dinheiro para quitar a dolorosa. Não sei se é a falta da delicadeza da senhora que me atendeu n’O Archote (nem sei se o restaurante se chamava mesmo O Archote) ou se os golpes andam soltos na praça a ponto de as pessoas não confiarem em ninguém. Mas que um pouco mais de humanidade está fazendo falta nessa vida, ah, está. E que pena dá ver o lugar triste que o mundo está virando por causa disso.

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