Claudia Tajes: Infelizmente, a grosseria é democrática

Foto: Pexels
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O sujeito era alto, forte, usava uma regata listrada e um farto rabo de cavalo compensando o alto da cabeça sem um fio de cabelo. Não deu para ouvir o que a senhora cheia de sacolas falou, mas a resposta dele veio na forma de uma voz de trovão compatível com a estatura do dono.

– Preferencial não é exclusivo.

O metrô estava lotado, ainda que não daquele jeito em que ninguém precisa se segurar, os corpos de uns escorando o dos outros – o que é bem desagradável, diga-se. Não havia assentos livres, e os destinados a pessoas com necessidades diversas estavam ocupados também. Não obrigatoriamente por quem deveria estar sentado neles, como era o caso do sujeito alto, forte, de regata e rabo de cavalo que, em vez de dar o lugar para a senhora cheia de sacolas, ainda se encheu de razão para justificar a recusa.

Preferencial não é exclusivo.

Uma mulher, também de pé, tentou argumentar com o sujeito, que se limitava a repetir a mesma frase. Parecia aquelas crianças pequenas que, sem argumentos em seus momentos de birra, repetem “bobo” e “feio” com suposta cara de brabeza. Em todo o caso, tão chocante quanto a reação do bobalhão de regata foi o fato de nenhum dos demais passageiros sentados, e aqui me refiro a estudantes, amigas conversando, homens mais jovens e distraídos em geral, ter cedido o lugar, preferencial ou não, para a senhora carregada de sacolas. Ou para qualquer outra das muitas pessoas mais velhas e de pé naquele vagão.

Isso que uma gravação no metrô repete a cada estação: seja solidário, ofereça seu lugar para quem precisa.

Não que a falta de gentileza atinja apenas os mais velhos. Infelizmente, a grosseria é democrática. Que tal essa história acontecida há pouco com a minha amiga M.? Por alguma discordância qualquer no trânsito, M. foi perseguida por uma motorista alucinada até que as duas pararam lado a lado em um sinal.

A motorista do barulho, então, abriu a janela e estendeu o braço na direção da minha amiga, ameaçando matá-la. M. viu a cena bizarra e tratou de se trancar bem. Sem conseguir atingi-la, a aprendiz de Tom sem Freios passou a arranhar a porta do carro de M. com suas unhas pintadas de vermelho-sangue. Agora imagina se a descontrolada tivesse uma arma, como tantos querem.

Por fim, um episódio da série Intolerância. Perto da minha casa, no meio de uma avenida movimentada, uma travesti se veste de Xuxa e dança o Ilarilariê em busca de alguns trocados. Em uma tarde qualquer, um fortão com um cachorro enorme resolveu se invocar com ela. A travesti é pobre, magrinha demais e triste de dar pena, o que não impediu o cidadão de pegá-la pela gola e ameaçar moê-la a pau, caso não parasse de dançar na rua – pública, até onde se sabe. Esse dia foi louco. Várias mulheres, de todas as idades e aparências, se juntaram para defender a travesti. O fortão foi embora xingando todo mundo e a travesti seguiu dançando tão triste quanto antes. Um pouco mais consolada, talvez.

E quando parece que essa coluna vai seguir até o fim no modo baixo astral, eis que surge um vídeo para trazer esperança para a torcida. Em um acampamento na fronteira entre o Irã e o Iraque, onde um terremoto deixou quase 500 mortos e milhares de desabrigados, um menino leva a amiguinha para pegar comida. O voluntário brinca com ele, acha que o pequeno quer mais uma quentinha, mas o menino diz: você esqueceu de dar comida para ela. O voluntário se emociona – não há coração calejado que fique indiferente – e o menininho ganha outra bandeja como prêmio. Se alguém ainda não tinha se desmanchado até esse momento, a cara de felicidade do pitoco é para acabar com os mais duros.

O vídeo viralizou e muita gente já conhece, mas ta aí para quem quiser ver. Para chorar a cada vale a pena ver de novo. Mas chorar feliz.

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