Claudia Tajes: Inimigo secreto

Foto: Pexels, Divulgação
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O fato é que a família resolveu inovar. Em lugar de fazer o amigo-secreto de todos os Natais, brincariam de Inimigo Secreto. Não era sempre a mesma coisa? Fulano tirava o papelzinho com um nome, abria e devolvia rápido, na esperança de pegar outro menos desagradável. Alguns trocavam o papelzinho cinco vezes e, mesmo assim, não ficavam satisfeitos. Gastar dinheiro com o miserável do tio Janjão? Comprar presente para a muquirana da Glorinha? No Inimigo Secreto, quanto pior o nome sorteado, melhor. Por coincidência ou não, ninguém devolveu o papelzinho.

Também estipularam que não haveria valor mínimo para o presente, o que caía como uma luva no Natal da crise. Se a pessoa achasse que seu Inimigo Secreto merecia apenas um chiclete, estava valendo. Para evitar melindres, as crianças ficaram de fora do trato. Dar um par de algemas para o chato do Bentinho, que vivia quebrando tudo, poderia ofender a Clau e o Dênis. Que, aqui entre nós, não davam educação para o filho.

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Antes de começar a entrega dos presentes, um cunhado pediu a palavra. Disse que o que iria acontecer ali em alguns instantes era revolucionário. Que eles iriam ressignificar o Natal. E que, por isso mesmo, a experiência poderia ser dolorosa para alguns.

– Cala boca, ô, marqueteiro.

A voz veio disfarçada de algum ponto da sala e foi seguida por risadas. O cunhado, comparou o anonimato do parente ao de um black block de máscara virando o contêiner da esquina.

– Vai sentar, ô, coxinha.

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O primeiro a se manifestar foi o Caio. Disse que o Inimigo Secreto dele soltava pum o tempo inteiro – e sempre acusava os outros. “É o Gui”, gritaram os parentes sem hesitação alguma. Gui, o irmão do Caio, foi contrariado até a árvore de Natal. Caio tirou do bolso uma rolha e entregou para o irmão. Sorriso amarelo. Aperto de mãos protocolar. Vez do Gui. “Meu Inimigo Secreto nos emprestou dinheiro a juros quando o pai ficou desempregado e tirou o nosso carro quando a gente não conseguiu pagar no prazo”. Nenhuma dúvida, era o tio Janjão. O pai disse alguma coisa do tipo: “Mas isso foi há muito tempo, eu nem lembrava mais”. Gui respondeu que jamais esqueceria do dia em que o Passat Surf Amarelo foi confiscado. O tio Janjão não se apresentou para receber o presente.

Foi mesmo a ressignificação do Natal. Quando a prima Lúcia se pegou a socos com a Dóris, a nova namorada do Oliveira, que só estava ali porque não tinha sido convidado para a festa da própria família, a dona da casa avisou que serviria o peru. Fora o Gui, que comeu com o apetite de sempre, sentado de frente para o tio Janjão, ninguém tocou no prato. Na saída, alguém recomendou a ele que não esquecesse de usar a rolha. A dona de casa achou o lado bom daquilo tudo: já tinham a comida e a sobremesa do Ano-Novo garantidas. Nina disse que de jeito nenhum, peru cisca para trás. O pai, que até então pouco havia falado, não se aguentou. Mais para trás que em 2016? Impossível.

Consenso entre os parentes: no Natal de 2017, volta o amigo-secreto. Que venham os pares de meia.

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