Claudia Tajes: Jorge, Ana, Zé e a moda

Pensando sobre o texto para esta edição especial da revista, cheguei à conclusão de que a moda, no meu guarda-roupa, é uma questão política. Antes que alguém diga mas que pinta chata, vamos às explicações.

Peças daquela famosa marca que se envolveu em um caso de racismo há alguns meses foram abolidas – a não ser as que ganhei da minha amiga L. e que trazem com elas muito amor envolvido. Com as marcas que foram acusadas de manter costureiras em regime de trabalho escravo, fiquei com o pé atrás. Não entendo direito o que significa ser “blogueira de moda”, principalmente quando a blogueira e (de)formadora de opinião mal sabe escrever. E mesmo a opção pelo básico que fiz é política. De outra forma, acaba-se gastando os tubos – e o resultado nem sempre compensa, como se vê em tantas fashion victims por aí. Relendo este parágrafo, até eu achei: mas que pinta chata.

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A política, aliás, tem servido de tema para a moda. Há pouco, nos desfiles de Primavera-Verão de Paris, a Chanel promoveu uma “passeata” de modelos. Bem no centro, de megafone em punho, Gisele Bündchen. Fora o uso de imagens, citações e situações que estampam coleções inteiras. Che Guevara, quem diria, até biquíni já virou.

Chanel - Runway - Paris Fashion Week Ready to Wear Spring/Summer 2015

Para faturar: política na moda

Que fique claro: é lindo ver o talento dos criadores e tudo o que a moda gera, oportunidades, negócios, empregos, recursos e etc. Que cresça cada vez mais.

Agora peço licença para falar de três filmes que fogem completamente não digo da moda, mas de um caminho que o nosso cinema encontrou para sobreviver: as comédias rápidas. E, das que não são rápidas, muitas vezes dá vontade de sair no meio.

Começando por Real Beleza. Quando a gente já chegava ao cinema preparado para rir não com a barriga, mas com os miolos, característica do cinema do Jorge Furtado, ele vem com um drama que até trata (olha o temada edição aí) do mundo da moda. Só que não. O fotógrafo procura uma modelo na serra gaúcha, mas o filme é sobre escolhas – e sobre conseguir garantir o que se escolheu. Se já tiver saído de cartaz, vale esperar pelo DVD.

O segundo filme vai representar o Brasil no Oscar. Que Horas Ela Volta?, da diretora e roteirista Anna Muylaert, mostra o que acontece em uma família sem preconceitos (arrã) quando a filha da babá é mais preparada que o filho dos patrões. Sobre isso, uma observação: no Rio de Janeiro, eu moro em um bairro onde existem lojas de uniformes para babás e empregadas. Alguns deles, inclusive, seguem tendências de moda. É um tanto chocante passar por aquelas vitrines em pleno 2015. E é sobre isso, de certa forma, que trata o filme da Anna.

Para pensar: "Que Horas Ela Volta?"

Para pensar: “Que Horas Ela Volta?”

E, por fim, um filme que não estreou ainda. Ponto Zero, do também diretor e roteirista José Pedro Goulart, foi apresentado no Festival de Gramado. Assisti em uma sessão de pré-estreia. O Zé vem da propaganda, mas levou dela apenas o gosto pela estética. Não tem nada de comercial no filme dele. O protagonista é o ator Sandro Aliprandini, de 14 anos. Vivendo a transformação de guri pequeno para guri grande, o Sandro passa toda a solidão e a inadequação do menino que sofre bullying fora de casa – e que também é um estranho na própria casa. O Zé Pedro contou que o Sandro não leu o roteiro e foi descobrindo o filme enquanto as cenas aconteciam. Não sei se o pobre do garoto já se recuperou do impacto, mas eu aqui sigo pensando sem parar no filme. Tomara que faça uma bela carreira.

Para não esquecer: política na moda

Para não esquecer: “Ponto Zero”

Tomara também que a Mari Scholze, minha querida editora, ao terminar de baixar a página depois de um dia duro de trabalho, não tire os óculos de gatinho, cansada, e pense: era para ela escrever sobre moda. Mas que pinta chata.

Recado: o papeleiro por profissão e poeta por vocação Catarino Brum Pereira, o Tio Cata, lança seu segundo livro independente, As Lutas de Um Escritor, no dia 3 de outubro, a partir das 17h, na Palavraria.

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