Claudia Tajes: Jovem & Idoso

Pode ler qualquer notícia sobre pessoas ditas comuns e comprovar: para as matérias de jornal, os viventes todos se dividem em duas categorias, jovens e idosos. Às vezes até escapa um “adolescente”, isto se o jovem ainda cheirar muito a leite. Ou um “homem”, rara colher de chá para o idoso pujante. Mas é raro.

No caso das páginas policiais, penúltimo lugar que eu gostaria de frequentar na vida – o último é a sua consequência natural, a prisão, é preciso atenção para não se perder na cena do crime. Dia desses, em uma briga de bar que acabou em tragédia, a notícia dizia: “o jovem agrediu o jovem e depois fugiu na companhia de um jovem”. Rapaz, homem, agressor, suspeito, cúmplice, vítima, palavras para substituir “jovem” é que não faltam. Basta procurar com o carinho que um texto merece. Não sei se escrever de qualquer jeito, só para cumprir carnê, desrespeita mais o leitor ou a nossa querida língua.

Por outro lado, qual a vontade de escrever com capricho sobre mais um assassinato? No saudoso tempo em que alguém era cara de pau o bastante para vender o viaduto da Borges, e que alguém era ingênuo o suficiente para comprar, o jornalista devia se divertir fazendo, de fato, a crônica policial. Agora são tantos tiros, facadas, roubos à mão armada, execuções e etc que deve dar vontade mesmo de terminar logo a tarefa. O sangue não pode esperar.

Já “idosos”, simplificando bem o caso, são quase todos os outros. Não interessa se a pessoa trabalha, namora, dirige, corre, faz ginástica, tem filhos pequenos, joga videogame com os netos, se apaixona todos os anos, usa biquíni, viaja, produz. Se não é “jovem” e já não se classifica na breve fase intermediária classificada como “homens” e “mulheres” – adultos com algo entre os vinte e poucos e os cinquenta e muitos anos, aplicam-lhe o selo de “idoso”.

E só piora. Sobre o atropelamento de um homem de 55 anos, há algumas semanas: “o idoso desceu do ônibus e foi colhido pela motocicleta”. Idoso de 55 anos! Lembrei de uma amiga de quarenta e tantos, bonita de chamar a atenção na rua. Certa vez um carro cheio de garotos – ou jovens – deu uma ré estabanada e quase bateu nela. Um dos rapazes alertou o motorista: não vai atropelar a velha!

Só sei que a musa do Instagram no Brasil, hoje em dia, é a atriz Vera Holtz, de 62 anos. Que os Rolling Stones seguem azoeirando por aí, em que (não) lhes pese a idade. Que a Jane Fonda, aos 78, andou sendo escolhida uma das mulheres mais bonitas do mundo. Isso para ficar no perfumado âmbito das celebridades, porque na vida real, essa aí que bate à porta de todo mundo com suas rugas e outros lembretes do tempo, essa continua provando que prazo de validade existe para os iogurtes, não para as pessoas.

Não que tudo isso tenha muita importância. São pensamentos de uma ex-jovem ranzinza que caminha a passos largos para se tornar uma idosa ranzinza. Por via das dúvidas, melhor redobrar os cuidados para não sair na página policial. Se algum jovem jornalista, cobrindo o caso, escrever algo como “a idosa foi presa após prestar depoimento”, eu mato.

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