Claudia Tajes: Quando uma medida desumana atinge a dignidade do cidadão, só hiena para achar graça

No dia 9 de setembro, quando esta coluna for publicada, o governo do estado em letras minúsculas mesmo, porque é isso que o momento pede já terá depositado mais parcelas do salário dos servidores do executivo que tem sido tesourado, sem dó nem piedade, há dois anos. Até o momento em que escrevo, entraram na conta dos funcionários exatos R$ 350.

Quando tudo começou, as parcelas já não pagavam o grosso das contas que qualquer cidadão precisa honrar no fim do mês, mas, ainda assim, eram maiores. Prestação da casa, aluguel, colégio, faculdade, comida, remédios, plano de saúde. A primeira providência, e óbvia, foi cortar os extras. A falta de dinheiro é uma das maiores causas de estresse, insônia, separações, desavenças familiares, depressão, doenças variadas. Trabalhar e não receber salário é tudo isso, com o agravante da injustiça. Faz dois anos que os servidores do Estado convivem com essa situação.

Ao parcelar salários pelos motivos que vem alegando desde o primeiro dia, o governo (com letra minúscula) arrastou para a penúria uma grande quantidade de negócios que dependem de dinheiro no mercado para existir. Restaurantes, salões de beleza, lojas, creches, táxis, academias, serviços em geral. Em vez de levar o Rex para tomar banho na pet shop, bota no chuveiro com o filho e ainda economiza água. Presente de aniversário ou internet em casa? A escolha não é entre Tramandaí e Garopaba, é entre pagar a luz ou o condomínio.

O governo (revisão, favor manter a letra minúscula) aumenta impostos, divulga corte nas despesas, não paga dívidas, mas continua parcelando salários. Uma coisa que a ingenuidade não me permite entender: por que os candidatos se engalfinham na hora de concorrer a cargos públicos se sabem que vão herdar uma bomba? O resultado é este que está aí. Mais que um papelão, uma catástrofe.

Pensando rapidamente no que se pode comprar com R$ 350. Em junho, a cesta básica em Porto Alegre ficou em R$ 443,66. Não vai dar para levar tudo. A mensalidade de uma escola particular, por baixo, é de R$ 800. Piso laminado na Tumelero custa, mais ou menos, R$ 35 o metro quadrado. Tomara que 10 metros quadrados resolvam o caso dos professores. Pegar ônibus durante 30 dias: R$ 112,50 – se a segunda passagem continuar grátis. Santa liminar. Melhor parar de fazer contas para não deixar todo mundo triste em pleno final de semana.

Prefeitura de Porto Alegre - Foto: João Fiorin/PMPA / Divulgação

Prefeitura de Porto Alegre – Foto: João Fiorin/PMPA / Divulgação

Não falta alguém para dizer que tem coisa pior. E tem. No começo de agosto, o governador Pezão pagou parte dos salários de maio no Rio de Janeiro. Não é consolo. Para piorar, faz dois meses que a prefeitura de Porto Alegre parcela salários também. Quando o direito de receber o seu pagamento depois de trabalhar o mês inteiro não é respeitado, o que se pode esperar? Talvez um processo. No dia 26 de julho, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul entendeu que o parcelamento gera o dever de se indenizar o funcionário. É um dano moral in re ipsa, que independe de comprovação. O perigo é acontecer o que uma amiga viveu quando processou uma loja que a mandou para o SPC indevidamente. Alegando não ter como arcar com a indenização, a dona da loja ofereceu uma foto dela mesma, tamanho pôster, a título de pagamento. Já pensou se a moda pega e o governo oferece uma foto daquele-que-não-se-deve-dizer-o-nome para pendurar na sala? Vade retro.

Fato é que, junto com o poder de compra ou de, pelo menos, se conseguir honrar os compromissos, tanto aperto tirou a alegria das pessoas. Não tinha como ser diferente. Quando uma medida desumana atinge a dignidade do cidadão, só hiena para achar graça. Aliás, nem hiena: os biólogos descobriram que a espécie de risada que as hienas soltam significa frustração. Sim. Dentro do seu grupo social, as hienas que estão por cima da carne seca emitem um som mais grave e baixo. As teóricas gargalhadas são emitidas por aquelas com posição inferior na hierarquia. Então, na verdade, as hienas riem para não chorar. Qualquer semelhança não será coincidência.

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