Claudia Tajes: Mãe sempre tende a imaginar o pior

Foto: AFP
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Enquanto os ventos da intolerância sopram com força no Brasil (se me desculpam o clichê), a América lá de cima é sacudida sem piedade pelos furacões. Há alguns anos, quando meu filho estudava nos Estados Unidos, foi a tempestade tropical Sandy que levou pânico para os norte-americanos e para as mães brasileiras sem notícia de seus rebentos, entre as quais eu me incluía. Na falta de uma mensagem, fiquei dias na frente da TV ligada na CNN em busca de alguma informação. Na época, meu guri morava em uma república de estudantes na Rua 14. Fuçando nas notícias dos jornais de lá, vi o vídeo de um carro sendo arrastado pelas águas nessa mesma rua. Desconsiderei o fato de que a 14 ia de um lado a outro da cidade e identifiquei, no meio do alagamento, o que me pareceu ser um pedaço da farmácia que ficava ao lado da república. Não era, claro, mas isso eu só reconheci depois de muito me desesperar.

Uma coisa que não muda, independentemente da modernidade: mãe sempre tende a imaginar o pior. O mundo ainda não era esse lugar violento em que vivemos hoje, e as nossas avós já ficavam com o coração na mão se os filhos demorassem a voltar para casa. Um aparte: como é bonita essa expressão, “coração na mão”. E muito mais eloquente do que se a gente usar palavras como “preocupada”, “angustiada”, “aflita”. Se o coração vai para a mão, bem, tem-se aí uma mãe caminhando para um ataque de nervos.

Quando os filhos são pequenos, nenhuma sensação é melhor do que a de saber que eles estão a salvo de tudo no quarto ao lado. O sono nunca mais é igual depois que as nossas meninas e os meninos descobrem a noite. Só as mães muitos fortes seguem dormindo como pedras. Nunca foi meu caso. Por isso mesmo, nunca me importei de sair da cama de madrugada para buscar a turminha. Adorava voltar ouvindo os poucos comentários permitidos diante de uma mãe. E as risadas, como riam de tudo. As maiores indiadas eram um grande programa: furar uma festa, passar horas em uma lan house, comer até passar mal em rodízio de pizza. Não consigo achar que viver seja simples, mas até que é menos complicado quando os filhos são pequenos.

Todo esse devaneio só por causa dos furacões que não dão descanso na América lá de cima. Mal o Irma passou levando tudo o que encontrava pela frente, já o Maria está ameaçando as ilhas do Caribe. Até a publicação dessa coluna, sabe-se lá o que terá destruído. Enquanto Trump pretende tirar os Estados Unidos do Acordo de Paris Sobre o Clima, aquela série de protocolos para limitar o aquecimento global, especialistas em meio ambiente afirmam: se a temperatura continuar aumentando, fenômenos como Irma, Maria e tantos mais serão cada vez mais comuns. Enquanto isso, por aqui, a Amazônia corre o risco de ser entregue em fatias às mineradoras. O recomendado seria correr para as colinas. Mas o que fazer se também venta nas colinas?

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Falando em filhos, existe um lugar onde aqueles que precisam de atenção ficam muito bem cuidados. Conheci na Restinga a Associação de Mães Rita Yasmin, que atende 30 crianças e adolescentes com deficiência leve. Quem reuniu apoiadores para construir a casa no ano 2000 foi Dunga, o ex-treinador da Seleção. De lá para cá, a associação vive de doações, feirinhas, brechós e eventos, sem nenhum apoio oficial, atendendo no turno inverso da escola. E é um brinco. A Rita Yasmin tem o projeto Acolher para Promover aprovado no Funcriança 2015/2017, que permite a dedução de doações no Imposto de Renda. Também aceita alimentos, roupas, brinquedos, material pedagógico e o que mais puder deixar a vida das crianças mais confortável. É só falar com a diretora, Antônia Pinheiro, que ela explica tudo. Basta procurar por Associação-de-Mães-Rita-Yasmin no Facebook ou entrar em contato pelos fones 51 3277-4129 ou 99274-4336.

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