Claudia Tajes: “Mágoa se vai com o tempo, ressentimento pesa para sempre”

Foto: Pixabay
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Em outros tempos, não sei se não venceu a validade da gíria, chamávamos aquele que se magoava para além do razoável de maguary. O razoável, eu sei, depende da capacidade de cada um para assimilar os golpes da vida. Mas é que alguns exageram na sensibilidade.

Na sofrência por que não foi convidado para um evento qualquer? Está maguary. Não gostou de algum comentário sobre a sua aparência – e não perdoa quem comentou pelas próximas décadas? É maguary. Relembra por anos e anos e anos o suposto desaforo de alguém? Maguary. Não se conforma quando o colega pega um trabalho melhor que o seu? Maguary.

Assim como a sensibilidade, a mágoa varia de pessoa para pessoa. O que me derruba, não abala o meu vizinho. O que acaba com a minha amiga, nem me faz cócegas. Toda mágoa é particular e tem sua importância. Mas, se o sujeito se magoa por tudo, é maguary.

O maguary reage de diferentes formas. Pode ser discreto, quieto, introspectivo. Esse tipo, quando considera que sofreu um dissabor, se fecha. Não adianta perguntar o que ele/ela tem. A resposta não virá, ou virá na forma de lágrimas que não secarão tão cedo.

Existe também o tipo raivoso, que espalha o motivo da sua mágoa pela cidade inteira, dando nome e RG do causador. Quem nunca – de um lado ou de outro? A mágoa rancorosa é repetida incontáveis vezes, sempre com riqueza de detalhes e sem jamais cansar quem conta. É a mágoa mais difícil de ser superada porque está viva em todos os momentos, queimando, perfurando, açoitando o magoado. E os ouvidos dos interlocutores.

E há a mágoa que se traduz em desprezo. Nada que se diga ou faça será o bastante para apagar o que houve. O maguary que despreza se recusa a tocar no nome de quem o magoou. Não esquece nem perdoa.
Além dos tipos de maguary citados acima, ainda há o Temer. Sim, aquele do Jaburu. Eita, criatura magoada.

Começou com aquela cartinha que ele mesmo vazou para a imprensa, uma escrita para a então presidente em 2015. “Esta é uma carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo. (…) Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo.” Nessa parte, em lugar de se compadecer dele, quase todo mundo pensou: mas que peça decorativa mais duvidosa. “Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo.” “Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião de duas horas (…) sem convidar-me (…).” “Tudo isso tem significado absoluta falta de confiança (…).” Um amigo tirou os nomes dos políticos envolvidos e enviou, do nada, a carta do Temer para a própria mãe. Sem saber do que se tratava, a pobre mulher surtou. “Tu enlouqueceste de vez, menino? O que foi que eu te fiz?”

Pois as cartas não são mais suficientes. Agora o Temer virou youtuber e já largou dois vídeos magoados se queixando de um candidato a presidente que, embora seja de um dos partidos da base, faz críticas ao governo dele nas propagandas da TV.

“Você diz que a educação é péssima, mas o meu ministro da Educação está com você.” “Nas vezes em que eu te apoiei para prefeito, governador e deputado, você era diferente.”

Temer é um tipo de maguary que bota a mágoa na internet. Se a moda pega, logo poderemos ver vídeos maguary de várias modalidades. Comerciais: “Eu sempre abasteci aqui e agora vocês me repassam um aumento sem que a gasolina tenha subido no distribuidor? É isso que eu mereço depois de todos esses anos?”. Trabalhistas: “Eu dei a vida por essa empresa e agora o senhor me terceiriza na cara dura? O senhor era bem diferente quando começou esse negócio”. Na família: “Mãe, é justo eu tirar uma nota melhor que a do mano e ele passar mais tempo no videogame do que eu? É isso que eu ganho por comer aquele bife de fígado horroroso sem reclamar, e ele sequer provar um pedacinho?”. No amor: “Quem diria, Adroaldo, que aquela paixão de cinco anos atrás terminaria com nós dois comendo miojo na frente da TV? Não era isso que eu esperava de nós, Adroaldo”.

Depoimento de quem já foi muito maguary na vida: mágoa passa, ressentimento estraga. Mágoa se esquece, ressentimento envelhece. Mágoa se vai com o tempo, ressentimento pesa para sempre. Vem para a luz, maguary. É bem mais leve fora daí.

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