Claudia Tajes: Marias

Somos incontáveis, as Marias. E hoje, com a volta dos nomes antigos para batizar as novíssimas gerações, estamos todas na moda

Maria Callas: também poderia se chamar Maria Diva | Foto: divulgação
Maria Callas: também poderia se chamar Maria Diva | Foto: divulgação

Na sala de espera da clínica de exames de imagem, as técnicas de enfermagem iam e vinham chamando as pacientes.

– Maria Eleonora.
– Maria Tereza.
– Maria Elizabeth.
– Maria Lúcia.

A cada Maria, a esperança de ser a minha vez, eu que sou Maria Claudia. Mas eram muitas as Marias antes de mim.

– Maria do Socorro.
– Maria Júlia.
– Maria Luíza.
– Maria Antônia.

Somos incontáveis, as Marias. E hoje, com a volta dos nomes antigos para batizar as novíssimas gerações, estamos todas na moda.

Nem sempre foi assim – ao menos na minha experiência. Minha mãe, romântica, apontava para as estrelas e suspirava pela vontade de ter três filhas, três Marias. Teve. No colégio, debochavam da gente justamente por isso.

– Maria Claudia, Maria Amélia e Maria Clara! Maria Claudia, Maria Amélia e Maria Clara!

Que o tosco senso comum da criançada pode transformar qualquer coisa em bullying, todos sabemos. Os seus óculos, peso, altura, espinhas, roupas, cabelo, tênis, tudo seu pode virar uma arma mortífera contra você mesmo. Que desespero ir para a aula já com a certeza de que se será vítima do escárnio dos espertinhos. No meu caso, não reparavam nos dentes de coelho, mas não perdoavam o Maria. Nome de pobre, falavam.

Por conta dessa bobagem, tratei de esconder o Maria tão logo foi possível. Hoje, ele só aparece nos consultórios médicos, nos cartórios e nos rolos em geral, quando o nome da gente é chamado com aquela cerimônia que antecipa uma má notícia. Agora, que eu gosto dele, sou uma Claudia – nome típico da minha geração e em baixa nos nossos dias. Atualmente, só atendentes de telemarketing me chamam de Maria. E esse é o melhor sinal para desligar o telefone sem dó antes que comecem a cantilena para me empurrar um novo plano de telefone ou de saúde.

As técnicas de enfermagem continuavam chamando:

– Maria Fernanda.
– Maria Léa.
– Maria Manuela.
– Maria Elisa.

Difícil de chegar a minha vez. Somos muitas Marias, 11,7 milhões, segundo dados do IBGE de 2016. É Maria que não acaba mais. Quando fiz vestibular, minha sala era lotada de Marias. Nos listões, são colunas e mais colunas delas. Onde existir ordem alfabética, as Marias estarão lá, ocupando os maiores espaços. Muito mais do que ocupam os Josés, que são 5 milhões e pouco, segundo o mesmo censo.

– Maria Eva.
– Maria Isabel.
– Maria Joana.
– Maria do Céu.

O nosso Maria também aparece, e muito, depois de outro nome. Iara Maria, Vera Maria, Glória Maria, Laura Maria, Patrícia Maria, Camila Maria, Ana Maria, Katia Maria, Cíntia Maria. Esses dias, conheci uma Jennifer Maria. Não há limite para a imaginação quando se trata de combinar uma Maria. Que o digam Maria Flor, Maria Sereia, Maria Amora, Maria Brisa.

Hoje, são muitas as Marias, todas meninas, que são apenas Marias. Sem mais nada para acompanhar ou dar origem a um apelido. Maria e pronto. Como é bonito esse nome.

– Maria José.
– Maria Benedita.
– Maria Ruth.
– Maria Claudia.

Fui para o meu exame deixando a sala ainda cheia de Marias à espera da sua vez. No crachá da técnica de enfermagem, o nome: Maria Bárbara. Sim, nós já dominamos o mundo.

Leia outras colunas
:: Claudia Tajes: Mulher-Maravilha e outras maravilhosas
:: Claudia Tajes: Nunca conheci um Joesley
:: Claudia Tajes: É proibido usar 46

Leia mais
Comente

Hot no Donna