Claudia Tajes: Melhor ajudar o próximo do que contribuir com os cofres públicos

Ilustração: Mário Alencar
Ilustração: Mário Alencar

Todos os anos, na entrega da declaração de renda, quando meu contador me dá a triste notícia de que terei imposto a pagar – em que pese, e como pesa, tudo o que já é descontado durante o ano, eu me amaldiçoo. Por que, raios, não destinei parte deste imposto que o governo federal considera que eu devo para uma instituição? Em lugar de ajudar quem ajuda os outros, tenho contribuído com os cofres públicos.

O que significa que tenho responsabilidade – ainda que ínfima – na montanha de recursos desviados, no fim das minhas contas.

Desta vez, não vou repetir o erro. Em vez de ajudar a adquirir parte de um deputado para votar com o presidente, por exemplo, vou contribuir para uma ONG que ensina música para os pequenos da periferia, ou que atende crianças com deficiência, ou compra remédios para quem precisa, ou acolhe animais abandonados, enfim, boas destinações para o meu dindim é que não faltam. Ainda mais nestes tempos de incentivos cortados e todo mundo de chapéu na mão em busca de apoio.

As leis federais de incentivo permitem que pessoas físicas e jurídicas destinem parte do seu imposto devido para iniciativas culturais, sociais, esportivas e da área da saúde. É um dinheiro que iria se perder mesmo, não sai do bolso do contribuinte. Não aumenta e nem diminui a conta, dá absolutamente no mesmo para quem paga. Mas é preciso escolher a entidade que se quer beneficiar até o dia 27 de dezembro.

Pessoalmente, por maior que seja a boa vontade, não saberei fazer isso sozinha. Algumas iniciativas oferecem assessoria ao contribuinte para que ele tenha êxito na empreitada. Duas das mais sérias são a irdobem.com.br e a vrprojetos.com.br. Os incentivos são o Pronas e o Pronon (para pessoas com deficiência e câncer), o Fundo da Criança e do Adolescente, a Lei do Esporte e as demonizadas Lei do Incentivo à Cultura e Lei do Audiovisual – que, ao contrário do que muitos pensam, não tomam dinheiro público para financiar filmes, peças e shows.

São tantas as ONGs para as quais destinar o IR que não há espaço para citar aqui. E não precisa só ser ONG. Valem também hospitais, instituições de educação, casas de apoio, projetos sociais e socioculturais. Onde houver alguém precisando de atendimento, há uma boa razão para reservar um pedacinho do que o leão vai morder.

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Outra coisa que eu não fazia, pedir o CPF na nota fiscal, também colabora para pingar algum na conta das entidades. Tem que se cadastrar no programa Nota Fiscal Gaúcha e escolher no site mesmo quis delas serão beneficiadas. Bem mais fácil do que pagar o rancho do mês.

Nessa caça aos recursos desaparecidos, a ideia do financiamento coletivo só cresce. Um exemplo: donas da editora Piu, Paula Taitelbaum e Fernanda Scherer colocaram no ar Quando o Sete Ficou Louco, obra infantil do mesmo Bram Stocker que logo depois aterrorizaria gerações com o clássico Drácula. O projeto está no site catarse.me/setelouco esperando pelo apoio dos leitores. Traduzido por Eduardo Bueno e pela Paula, ilustrado lindamente por Mário Alencar, é a história de um menino que tem um corvo de estimação. E assim, com o financiamento coletivo, muitas iniciativas ganham vida. O novo disco do Vitor Ramil, Campos Neutrais, é uma das melhores. Já ouviu?

Se lá fora o pessoal corta aqui e ali, mexe no nosso dinheiro e tira várias esperanças, o jeito é quem pode se ajudar. Porque se tem coisa que pode fazer esse mundão hostil melhorar – um pouquinho, que seja –, com certeza é investir em gente.

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Momento descontração. Duas amigas de mais de 50 conversando:
– O que te dá mais prazer na cama hoje?
– Uma tomada ao lado da cabeceira.
Quem vive em uma casa cheia de extensões e fios puxados, há de entender.

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