Claudia Tajes: Memória fraca, o remédio

Ah, se eu tivesse nascido na Argentina. Sem desmerecer o Rio Grande ou o Brasil, eta, terra boa, aquela. A esculhambação é bem parecida com a nossa, os portenhos levam a fama de povo mais presunçoso do universo (não concordo), as crises econômicas vão e vêm com a desenvoltura de um passo de tango, a política de lá, a exemplo da de cá, produz figuras pouco confiáveis – para se dizer o mínimo. Mas e a comida, as livrarias, a educação, o patrimônio preservado e tantos outros indicativos de civilidade dos hermanos? Aqui se fecha museu por falta de segurança de dia. Lá se pode andar pela rua de noite sem a sensação de uma ameaça a cada esquina. Antes que o assunto cause polêmica com alguém, porque gostar de lugares além do pago às vezes ofende uns e outros, não é por nenhuma das razões acima que eu queria ser argentina. Não mesmo.

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Eu queria ser argentina por causa de um dado novo – mas que já parece ser um traço comum ao povo castelhano: a facilidade com que esquecem de pessoas pelo caminho. Começou há pouco mais de um mês, quando um homem esqueceu a mulher no posto de gasolina em Passo Fundo. Consta que ela desceu do carro para comprar biscoitos enquanto o marido ia ao banheiro. O filho de 14 anos devia estar no Whatsapp, esse mundo paralelo que veio para acabar de vez com o diálogo entre pais e adolescentes. Aliviado, el maridón deu a partida e só notou que a patroa não estava no carro mais de cem quilômetros depois.

Esse está perdido. A cada DR, a cada resmungo, a cada cara feia, cada vez que quiser ir ao jogo do Boca ou que tentar fugir do almoço de domingo na casa dos pais dela, a história vai voltar. E, caso o marido não conheça, a mulher poderá citar uma famosa frase da escritora norte-americana Dorothy Parker, aqui já traduzida para o espanhol – o que deixa tudo mais dramático: las mujeres y los elefantes nunca olvidan. Teria sido essa a inspiração para o ensaio do fotógrafo britânico Richard Avedon em uma série de fotos de 1955 que até hoje são consideradas algumas das mais emblemáticas do mundo?

Como se não bastasse, há poucos dias um casal esqueceu a filha de 19 anos em um posto de gasolina em Eldorado do Sul. Enquanto os pais compravam lanches para a viagem, a coitada foi jogar um papel no lixo – coisa que lá em casa nunca fizeram, o que obriga quem entra na viatura a sentar entre garrafas de água vazias e outras abandonadas pela metade, propagandas de apartamentos no cafundó do Judas (mas com Web Space e Estação Zen), um pé de meia (um só), livros, cadernos e, quem sabe, um violão. Os pais só perceberam o esquecimento porque foram abordados pela Polícia Rodoviária Federal mais de uma hora depois. Podem preparar la plata, porque essa guria vai precisar de muita terapia.

Também contribuiu para a confusão o fato de os telefones celulares não funcionarem de jeito nenhum nas estradas. Se houvesse sinal, os esquecidos seriam avisados e voltariam mais rápido. Do jeito que é, foi até sorte não terem dado falta das moças já tomando um mate na sala de casa.

Essa capacidade de esquecer das pessoas pela estrada é que passou a me encantar nos argentinos – além da comida, das livrarias, da educação, do patrimônio preservado e de tantos outros indicativos de civilidade. Não que eu fosse esquecer de filho, marido, família, amigos, isso de jeito nenhum. Queria esquecer só dos que atravancam o caminho. Esses ficariam para trás, sem Polícia Rodoviária para lembrar. E a gente, tão leve, livre para seguir em frente. A gente, passarinho.

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