Claudia Tajes: Meu querido Papai Noel

Papai Noel, lembra quando o senhor só trabalhava na noite de 24 para 25 de dezembro? Bons tempos. Bem verdade que a sua era uma jornada dura. No espaço de poucas horas, o senhor e seus duendes cruzavam os céus para fazer todas as entregas enquanto as famílias devoravam perus enfeitados com abacaxi e ameixa. Imagino o seu nervosismo. Se os presentes não estivessem na árvore quando a primeira criança levantasse correndo da mesa, o seu bom nome estaria manchado para sempre.

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Dizem que, para cumprir com o cronograma, o senhor dava de relho sem piedade nas renas. E que a Associação de Proteção aos Cervídeos da Lapônia, em campanha por um tratamento mais humanitário para os bichos, fez com que o senhor abandonasse de vez o transporte de tração animal. Com todo o respeito às renas, que merecem ser muito bem tratadas, o senhor cometeu um erro. A terceirização das encomendas pelo FedEx aumentou em muito o preço final dos presentes. E com a alta dos combustíveis, então, a entrega de árvore em árvore ficou inviável.

Foi então que o homem inventou o shopping.

00b4b0d9As crianças e a magia do Natal

Papai Noel, as coisas ficaram muito mais complicadas desde então. Antes, caminhão de bombeiros era caminhão de bombeiros e fim de papo. O senhor entregava o veículo vermelhinho, quase sempre de madeira, e a criançada adorava. Mas agora é preciso obedecer a mil e uma especificações para agradar. A escada deve ter neon, os bonequinhos devem vestir uniforme térmico que suporta altas e baixas temperaturas, a mangueira deve soltar água gaseificada com sabor morango e, se o caminhão não voar, pode esquecer. E as bonecas? Se não vierem com uma coleção de roupas desenhadas pelas peruas & irmãs Kardashian, estão totalmente demodê.

A verdade, Papai Noel, é que as crianças não querem mais ganhar caminhão de bombeiro e boneca. Elas querem iPad, iPhone, videogames, computadores, skate com motor – e por aí vai. Nada contra crianças que não se comportam como crianças, elas são umas gracinhas de qualquer jeito. Só pena dos pais se comprarem usando aquilo que mais se assemelha a uma bola de neve no nosso Natal tropical: o cartão de crédito.

00b4b0d8Rena unida jamais será vencida

Mas o que mais me comove nisso tudo, Papai Noel, é o novo regime de trabalho a que o senhor foi submetido. Juro: em 2015, vi o primeiro Papai Noel em setembro. Se-tem-bro, mês em que se deveria saudar a primavera, que aliás chegou em forma de chuvas e problemas. Em outubro já eram muitos os Papais Noéis na frente das lojas e em novembro, então, com a inauguração das decorações do comércio, a população de senhores de barbas brancas vestidos de cetim vermelho fugiu ao controle. Esses dias, no metrô, viajei ao lado de um Papai Noel moreno, magro e triste. A máscara, que mais parecia a cara de um velho mau de filme de terror, ele levava pendurada na mochila puída da Nike em que apoiava a cabeça. Não fosse a vergonha de fazer selfie, estaria ali a foto com o Papai Noel que eu sempre quis ter.

Mas não há de ser nada, Papai Noel. Assim como o senhor, todos nós trabalhamos muito nesse ano que passou – e vamos continuar trabalhando, porque vem aí uma cacetada de impostos para pagar. E as matrículas no colégio. Mas esses são assuntos para depois. Antes tem os presentes, a ceia e mais um monte de compromissos ainda em dezembro – espera-se que com o décimo-terceiro dos funcionários na conta. De minha parte, tomei providências e comecei a fazer o que todo brasileiro que acredita no futuro faz: passei a jogar na Mega Sena. Não está fácil para ninguém, Papai Noel. Mas a gente chega lá.

00b4b0daEsse Papai Noel é para quem se comportou muito bem

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