Claudia Tajes: minha amiga dona de casa

Você pode ser advogada, atriz, juíza, ministra, presidente, motorista, ilustradora, cineasta, professora, escritora, jornalista, publicitária, comerciante, ambulante, arquiteta, engenheira, corretora e sei lá mais quantas profissões existirem nesse mundo. Pode dar autógrafos na rua, ganhar uma grana preta, viajar por muitos países, acordar loira & lisa todos os dias. Pode postar comentários politizados no Facebook, se assumir feminista, ir contra as convenções. Mas na hora em que vê a bagunça na sala, o caos na cozinha e o furdunço nos quartos você percebe a verdade da qual mulher alguma escapa: você sempre vai ser dona de casa. E se tem trabalho que consome uma prenda é esse. O de dona de casa.

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Para começar, algumas palavras sobre a casa, esse universo que parece ter vida própria e que jamais obedece à aspiração básica da dona de casa (que as coisas fiquem nos seus lugares – nem que seja por alguns minutos.). A sala, em tese o ambiente para reunir a família e receber as visitas, era sempre arrumadinha na época das mães e avós da gente. Não havia chinelo perto da TV, casaco pendurado na cadeira, boné na estante. Não sei como elas conseguiam manter tudo em ordem, mas conseguiam. Hoje em dia, nas conversas com pessoas que conheço e na minha própria experiência, a sala é a extensão do guarda-roupa das famílias. Tudo o que desaparece, cueca, camiseta, sutiã, moletom, pode procurar atrás do sofá ou em cima do aparador. São grandes as chances de encontrar. Com isso se deduz que os quartos dos moradores não são exatamente um modelo de organização. E isso que não falamos na cozinha.

00a546f4Vai concorrer ao prêmio literário enceradeira de ouro

Se a casa como um todo tem vida própria, na cozinha impera a geração espontânea. A dona de casa acabou de deixar a louça brilhando no escorredor ou na máquina. Mais: o fogão está fechadinho e o rodo deu jeito nos respingos de almoço do chão. Então ela sai da cozinha por alguns instantes para guardar nos quartos algumas das peças de roupa atiradas pela sala. Na volta surgiram copos, xícaras de cafezinho, pratos de sobremesa sujos. Não se imagina como, mas até uma panela que andava desaparecida brotou em cima da mesa – e toda queimada. A cozinha é a prova de que ameaçadores objetos inanimados assombram muito mais fora dos filmes de terror. Porque, na dura realidade, é preciso limpar de novo cada um deles.

00a546f6Jornada dupla: dona de casa e pin-up

E a parte de lavar roupa? Não seria tão pesada não fosse o maior mistério que as donas de casa enfrentam: onde vão parar todos os pés de meia perdidos? Não adianta procurar, é como se eles se desmaterializassem. Curioso é que sempre some apenas um pé, jamais o par. O resultado é que novos pares vão se formando, com o pé azul marinho agora unido ao laranja, e assim por diante. Uma das tendências atuais da moda é as meninas usarem pés de meia diferentes, já comprados assim. Só pode vir do desespero de uma dona de casa por não conseguir formar os pares certinhos. A tarefa de passar roupa, se me desculpam, eu vou pular. Ser dona de casa é destino de toda moça que tem casa. O trabalho caseiro, principalmente quando reconhecido pela família – o que quase nunca acontece -, traz bastante satisfação. Mas passar roupa já entra em outra categoria, a da provação, razão de ser ignorado aqui na coluna.

00a546f8Precisa de uma mão para passar roupa?

Não dá para esquecer que homens que moram sozinhos também viram donos de casa, alguns até fanáticos por arrumação. Mas a maioria, pelo que já observei, só encarna o Furacão Branco de Ajax quando todos os copos se acumulam na pia e as cuecas estão sendo usadas do outro lado. Bendita tranquilidade que evitaria muitas rugas às donas de casa se elas conseguissem agir assim. A conversa está boa, mas vou ficando por aqui. Lembrei que tenho uma enorme pilha de roupa para passar. E provação, sabe como é: ou a gente termina logo, ou ela termina com a gente.

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