Claudia Tajes: minha primeira vez no Maracanã

Leitores que não gostam de futebol, leitores de outras torcidas, não se irritem. Esta não é uma coluna sobre futebol ou sobre um time específico, é só o relato de uma experiência que, por casualidade, envolve futebol e o meu time. Dito isto para serenar os ânimos, passo à tal experiência.

Era um final de semana de trabalho no Rio de Janeiro e tinha convidado o meu filho para ir junto. Só que o mandachuva do projeto para o qual estou escrevendo arrumou um compromisso de família às três da tarde, o que encerrou o expediente pelas duas e pouco. Às quatro tinha Botafogo x Grêmio no Maracanã. Um telefonema e estava decidido: faríamos a nossa estreia lá onde o Brasil não jogou na Copa de 2014.

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Comprar o ingresso foi facílimo. Coloquei no site “torcida visitante” e três espaços se abriram. O preço: R$ 30, com meia entrada para estudante e outras categorias. Boa impressão número 1, já que o ingresso para jogos na Arena e no Beira-Rio custa bem mais do que isso. Como tinha um local mais perto do gramado sendo oferecido, e com bom preço também, comprei. Bastava retirar os ingressos na bilheteria 3 e estava feito o carreto.

Meus amigos recomendaram o metrô como a melhor forma de chegar ao Maracanã. Ressabiados pelo comportamento agressivo de parte das torcidas do Grêmio e do Inter com os visitantes, quase pegamos um táxi. Dinheiro posto fora, nos repreenderam. Gaúcho não se entrega (é o que dizem), de maneiras que enfrentamos a estação Catete vestidos com o manto tricolor e entramos no vagão para viajar em meio aos torcedores com a camiseta do Botafogo.

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É preciso fazer um comentário: a torcida deles não costuma ir em peso aos jogos, ainda mais nas fases em que o Botafogo está lá embaixo na tabela. Em tese, seria tranquilo. E foi. A cada parada a nossa turma engrossava com um novo torcedor gremista fardado e sozinho, um pai com o filho pequeno usando a camiseta do Barcos, entrou até um senhor de idade enrolado em uma bandeira daquelas que estampa o escudo do time no pavilhão do Rio Grande. Depois de algumas estações, mas não muitas, o metrô estacionou praticamente dentro do Maracanã. Obra concluída para a Copa do Mundo, eu sei, mas deixa a gente pensando na maravilha que seria um metrô largando o pessoal na porta do Beira-Rio, da Arena (onde o Trensurb chega, mas depois é preciso dar uma caminhada inviável para adultos que não estejam com as pernas firmes), nos bairros, pela cidade. Metrô em Porto Alegre. Do jeito que vai e sendo otimista, talvez para os nossos netos.

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78.838 lugares para pouco público

No breve deslocamento até o estádio, o único sinal de animosidade. Uma torcida organizada qualquer gritava barbaridades sobre a preferência sexual dos gaúchos – o que eles gostam de dar e o que fariam com essa parte do corpo dos inimigos se os pegassem de jeito. Na ausência de uma parede para encostar, a gauchada marchava meio de lado e pelas beiradas. Precaução nunca é demais. Eu estava de bolsa e a revista foi rigorosa. O PM inspecionou todo o conteúdo atrás de alguma arma e de camisetas da Força Jovem, organizada proibida de pisar no Maraca que se infiltra entre os visitantes para entrar.

Nosso lugar era mesmo ótimo e grudado no campo, mas com um pequeno porém: não tinha nenhum torcedor gremista à vista. Espaço misto, só que não. Aqui e ali, uma plaquinha de “7 a 1” esperando pelo Felipão. Sentamos meio constrangidos entre um menino de seus seis anos e um cidadão que falava para ele mesmo: o Botafogo não dá, o Botafogo não dá. Detalhe é que o jogo nem havia começado. Aplaudi quando o Marcelo Grohe entrou, e o meu filho: não faz isso mãe, coitados dos caras. Estranha a sensação de ser minoria e se sentir forte. Fiquei na minha e só voltei a me manifestar nos dois gols do Barcos.

Foi uma boa estreia para quem nunca tinha visto o novo Maracanã de perto. Na saída, meu filho e eu tiramos as camisetas não por temer qualquer coisa, mas para não ostentar a nossa vitória. Não custa ter respeito. À paisana, seguimos pelo meio das rampas sem lembrar dos cânticos que antes ameaçavam a integridade corporal dos gaúchos. Sem querer magoar ninguém, se agora alguém precisava caminhar se encostando nas paredes, eram eles.

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Fotos: Theo Tajes

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