Claudia Tajes: Minhas gurias

Foto: Pexels, reprodução
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Minha amiga Cláudia me apresentou a Laura, que me encaminhou para a Carol, que me apresentou a Marie. A Marie é haitiana e veio para o Brasil sozinha. Chegou ao Acre e, no caminho até Porto Alegre, se descobriu grávida. O marido ainda estava no Haiti. Com a ajuda de algumas pessoas, a Marie foi morar na Restinga, mandou buscar o marido e teve seu filho brasileiro, como ela diz, orgulhosa. Sobrevivia com muita dureza, fazendo bicos e serviços esporádicos, até que a minha irmã Clara soube que uma amiga dela, a Carla, precisava de uma moça para trabalhar meio turno. Foi assim que a Carla e a Marie se encontraram e que agora a Marie está empregada. Até o fechamento desta edição, a Carla, que trabalha fora o dia inteiro, tem uma banda e é artista plástica, estava gostando muito da nova funcionária.

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Argentinas contra a violência em Buenos Aires

Uma coisa reconfortante nesses tempos complicados é a existência de uma verdadeira rede de pessoas dispostas a ajudar os outros. Exemplos dos últimos dias: médica encaixa na agenda lotada uma paciente sem plano e sem perspectivas de ser atendida com rapidez nos postos de saúde. Um profissional com muitos contatos consegue exames de imagem para alguém que não pode pagar. Uma senhora cede um apartamento para abrigar uma família em dificuldades. Médico é acionado e vai atender, de graça, uma criança que precisa de medicamentos controlados. Quase todos os dias alguém oferece livros escolares, roupas, remédios e móveis para doação no Facebook. Tem ou não tem gente muito boa nesse mundo?

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O Fora Trump delas

Sem excluir os rapazes, até porque tenho a sorte de conviver com alguns extremamente generosos, a solidariedade que cada vez mais une as mulheres é coisa bonita de ver. E a tal da consciência feminista, nada mais que uma forma de exigir respeito, é em grande parte responsável por este laço. Ninguém precisa concordar e há mesmo quem execre, mas uma estultice como a que o notório bestalhão Rodrigo Constantino publicou há alguns dias, isso ainda surpreende. Ou não, em se tratando de quem escreveu. Um trecho: “Para se provar ‘independente’, para se mostrar ‘descolada’ e ’empoderada’ (argh!), a mulher tem que praticamente se transmutar em homem, e um homem feio, descuidado, largado. (…) Como pai de uma bela menina adolescente, feminina, só posso continuar lutando contra essa praga chamada feminismo, para tentar mantê-la o mais longe possível de minha linda filhinha. Eu não troquei tanta fralda, não me esforcei tanto em sua formação, não investi tanto em sua educação, e não comprei tanta parafernália da Mac para vê-la bancando um macho estranho ou virando uma mocreia desengonçada”. Coitadinha dessa filha.

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Única figurinha possível para certas opiniões

 

Ela não gosta de viajar na poltrona do meio, único lugar disponível naquela manhã. Entrou no avião conformada, sentou ao meu lado e, surpresa: a Valkiria era minha leitora. Trabalha com medicamentos, em especial para o câncer, e acabei transformando a viagem em uma consultoria sobre prevenção. Bióloga com mestrado em reprodução de peixes, casada há mais de 30 anos com um marido sensível, mãe de um filho de 18 que passou agora em filosofia, viaja três semanas por mês a trabalho. O bom desses encontros ao acaso é que a gente conhece histórias que depois ficam – e inspiram. Na saída, a Valkiria mostrou o livro que estava lendo: Diário das Coincidências, de João Anzanello Carrascoza, onde o autor conta causos dele e de seus leitores. A literatura imita a vida.

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Recomendação de leitora: o livro da Valkiria

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