Claudia Tajes: Minhas saudades

Fotos: Theo Tajes, divulgação
Fotos: Theo Tajes, divulgação

Já notou como tem gente que fala “ciúmes” e “saudades” sempre assim, no plural, independentemente da concordância? Meu ciúmes é grande, minha saudades não passa. É como se o significado dessas duas palavras não coubesse em um simples singular. Mas cada um que conjugue como bem entender, essa coluna nem é sobre isso. É sobre saudades no plural mesmo, saudades com S do começo ao fim, saudades das mais variadas. As saudades que a gente sente quando está longe de casa.

Já são 10 meses morando fora de Porto Alegre. Longos meses. Fui embora por causa de trabalho – que não exatamente abunda (eita, palavra horrorosa) na nossa cidade. A diferença entre fazer isso aos 20 e poucos e três décadas mais tarde são, precisamente, esses 30 anos de diferença. Aos 20, em geral, a pessoa ainda não criou tantos vínculos além dos familiares, não sabe bem o que quer ser, não se sente obrigada a manter uma determinada situação profissional ou financeira. Aos 20, ninguém precisa sentir saudade. Depois que se tem filho, casa, uma carreira mais ou menos reconhecida, responsabilidades, amigos, amados, uma vida toda em andamento, enfim, daí ir embora dói. E como dói.

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No meu caso, a chegada à nova cidade foi um caos. O mês de flat por conta da firma terminou antes que conseguisse um apartamento em definitivo. Por indicação aluguei, sem ver, um no Flamengo. Abrindo a porta, dois pesadelos juntos e ao vivo me recepcionaram: baratas grandes e gordas comodamente instaladas pelo imóvel e uma só janela em todo o apartamento. Umazinha. Era como se o quarto – sem persianas – ficasse no inferno e o resto, na umidade escura da Floresta Amazônica. Já tenho uma certa idade. Se um gentleman aqui identificado como J.M.C.O. não tivesse me resgatado, eu com certeza não estaria aqui para contar a história.

O segundo endereço, também por indicação, foi um apartamento emergencialmente dividido com outras pessoas. De onde roubaram meus melhores vestidos, meus melhores sapatos e também aqueles dólares comprados na baixa que um imigrante previdente sempre leva mocosados na mala, para alguma necessidade.

Poderia escrever o Guia Michelin dos Piores Hotéis do Rio de Janeiro, eu que estive em todos eles no mês que se seguiu. Um agradecimento especial a João, Nora, Martha, Katia, Leah, Luísa, Meia, Jarbas, Ana e Iara, que me aguentaram chorando no telefone muitas e muitas vezes, naquela fase. Enfim, e porque toda pobre menina batalhadora acaba encontrando uma curva de subida no seu roteiro, aluguei um apartamento decente. O trabalho também entrou em fase melhor. Se tivesse 20 anos, finalmente estaria bem. Mas onde acomodar as saudades de tudo nesses poucos metros quadrados em que moro hoje?


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Saudade do filho sempre tocando violão enquanto faz qualquer coisa em casa, estuda, trabalha, conversa, lê, vê filme. Saudade do quarto desarrumado dele. Saudade de um banheiro grande, como faz falta um banheiro grande. Saudade de cozinhar em uma cozinha equipada. Saudade de almoçar com a família. Saudade de marcar um encontro com as amigas no fim do dia – e depois desmarcar, mas pelo menos estar a poucos bairros de distância. Saudade de topar com conhecidos na rua. Saudade da escova do Luciano. Saudade das minhas médicas e da minha dentista. Saudade de ir nos lugares de sempre. Saudade de um namorado que te busque no fim do dia. Mais que saudade:
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saudades.

 

Saudade é coisa que ocupa a cabeça – muito mais que o coração. Não é relativa só às boas coisas que ficaram, mas a tudo o que não se tem mais. Quando só chovia em Porto Alegre, até disso eu sentia saudade. Bem verdade que, estivessem os donos do meu amor mais radical aqui comigo, eu tiraria de letra. Sem eles é que a coisa aperta. Mas não há de ser nada. Tanta gente já conseguiu, acho que consigo também. Pelo menos, agora, tenho minhas janelas. E nunca mais vi uma barata dentro de casa. Parece pouco. Mas quando batem as saudades, qualquer consolo é consolo.

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E por falar em saudade: o livro Assis Hoffmann – O Fotógrafo Dentro da Cena, registra, em 117 imagens, a trajetória de um dos mais talentosos e respeitados fotógrafos do país. Bancado em boa parte pelo filho do Assis, Leonardo Zigon Hoffmann, e organizado pela jornalista Cláudia Aragón, está à venda no Instituto Ling e pelo e-mail
emilia.gomes@zigon.com.br

 

 

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