Claudia Tajes: Moda não é obrigação, roupa não define gênero

Foto: AFP
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Teve um tempo em que, a cada lançamento de coleção, algum estilista vinha com saia para homens no seu desfile. E era sempre um escândalo. Homem de saia usa cueca ou calcinha? Homem de saia deve depilar as pernas? Homem de saia é moderno ou frozô? Apesar do deboche, nunca faltava um criador para afrontar o gosto comum trazendo um rapaz alto e lindo para cruzar a passarela de saia. E a gente lá, sem entender muito bem o que significava aquilo.

Mas isso foi há tempos mesmo, quando qualquer coisa que transgredisse o que se esperava de um dos gêneros causava um Deus nos acuda. Imagina o pessoal do futebol vendo isso? Filho meu só usa saia passando por cima do meu cadáver – de calça. Olhando para o passado, saia sempre foi roupa de homem. Os sumérios, os egípcios, os romanos, os gregos, todos usavam. Um escocês sem kilt é um gaúcho sem bombacha: não existe. A diferença é que, aqui, saia é coisa de prenda. E ai de quem trocar as bolas.

Engraçado é que essa também foi a reação do mundo quando as mulheres começaram a usar calças, na França dos anos 1800. Havia até uma lei que autorizava prender as pioneiras, lei essa que ficou esquecida em algum canto e só foi derrubada oficialmente, pasme, em 2003, quando ninguém sequer lembrava que ela existia. E que tal essa: em 1930, o Comitê Olímpico Francês retirou as medalhas da atleta Violette Morris porque ela insistia em usar calças. Então veio a guerra, a escassez de tudo e, é preciso que se diga, Coco Chanel revolucionando a roupa feminina. A França, a moda e o mundo nunca mais foram os mesmos.

No Brasil, a novidade surgiu um século mais tarde. Lá por 1900, as calças para senhoras chamavam-se jupes-culottes. Quem ousava sair para a rua com elas era perseguida e hostilizada. Justificativa: madames de calças compridas atentavam contra o decoro. Qualquer semelhança com acontecimentos de 2017 não deve ser mera coincidência. Fiscalizar a moral alheia é uma tradição que nos acompanha pela vida.

Uma coisa é certa: haja coragem para fugir das tendências tradicionais e se expressar com liberdade pela roupa.

Na faculdade, havia uma menina que andava sempre de gravata. Obviamente, eu e os demais apressados achávamos que ela fosse lésbica. Não era e, se fosse, seria assunto dela. Outra colega, essa lésbica, raspava o cabelo e andava sempre com uma saia de bailarina. Nada como a falta de obviedade para desconcertar os certinhos.

Hoje temos Liniker de longo, Pablo Vittar de maiô, Anitta quase pelada, Laerte vestida quase que como a mãe da gente, Silvero Pereira ora mulher, ora homem, Valéria Houston cantando como uma diva em um vestido de paetês, a atriz travesti Renata Carvalho trocando de roupa em cena e deixando a plateia tonta com tanta beleza. Sem falar nos exemplos da vida real: as duas namoradas com a roupa que qualquer mulher usaria, as duas de mãos pela rua, o garoto que vai para a aula de rímel, o senhor que quebra o cinza da camisa com uma echarpe rosa, um rapaz de saia. Na Cidade Baixa, sempre tem um rapaz de saia – ou vários.

Voltando a ela, agora não só a saia, mas muitas outras peças do vestuário das mulheres podem encontrar lugar no guarda-roupa dos meninos – os sem preconceitos, pelo menos. Tenho visto algumas marcas de Porto Alegre e é incrível como o pessoal experimenta nas formas e propostas. Às vezes, a roupa é criada a partir de materiais reaproveitados. Em outras, não existem duas peças iguais na mesma coleção. Se em muitas coisas a nossa cidade anda triste, isso não inclui a moda. Algumas marcas para conhecer – todas com Facebook e Instragram: Yugen, LES, PHSD, Astro Runners.

Moda não é obrigação. Roupa não define gênero. Que cada um use o que bem entender. E a saia, claro, segue sendo opcional para os homens. E para as mulheres, também.

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