Claudia Tajes: Muita calma com os velhinhos

(Adriana Franciosi/Agência RBS)
(Adriana Franciosi/Agência RBS)

Quase todo mundo apoia causas no Facebook, ama os animais, assina petições e se diz capaz de praticar a empatia. Isso até encontrar uma senhora com o carrinho lotado pela frente no caixa do supermercado. Quando isso acontece, homens e mulheres de boa-vontade, e menos idade, esquecem a máxima aquela que prega o respeito aos mais velhos. E a fila vira um festival de reclamações.

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Admiro os velhinhos e as velhinhas com disposição para ir ao supermercado, eu que só me animo a abastecer a casa quando a geladeira já virou um deserto. Por velhinhos e velhinhas entenda-se aqui aquelas pessoas que realmente já têm bastante idade. Não sei dizer quanta, muito mais de 80 e tantos, talvez. Embora isso não seja uma regra. Com seus 90 e algo, a dona Eva Sopher segue com uma juventude que só pode ser explicada pela alma. Falando nisso, a única coisa que abate essa senhora é a instabilidade nas contas do Theatro São Pedro. Para virar um amigo do teatro e ajudar a manter aquela beleza toda de pé, basta ligar (51) 3327-5100.

(BEN STANSALL/AFP) Clint Eastwood aos 86 anos: dá um caldo

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Mas voltando aos velhinhos. Na minha opinião de criatura da dita meia-idade, velhinho no supermercado pode tudo, apertar os pãezinhos até achar o mais crocante, fazer o rapaz da fiambreria tirar e recolocar as fatias até completar exatos 115 gramas de queijo, pedir bis nas mesas de degustação. É um prazer ver as senhoras de cabelos brancos escolhendo tomates com os critérios que só as muito experimentadas em molhos têm. E os senhores que estacionam os carrinhos para uma conversa no meio do corredor, coisa boa de se ver.

Para a minha mãe, que nem chegou ao patamar de velhinha, passada rápida no supermercado foi algo que jamais existiu. Qualquer produto com remota cara de novo merecia um certo assombro. Limpador de mofo para telhado? Comprava. Para o que, não se sabia. Mas comprava. Também nunca faltou o trololó com a moça do caixa. A senha do cartão de débito era digitada com concentração máxima e zero de pressa. Se fosse o caso de procurar moedas na carteira, aí quem estava atrás na fila já começava a bufar. Eu, esperando para carregar as sacolinhas dela, bufava.

Não adianta: paciência é coisa que só vem com o tempo. Tentei dizer isso para a moça com roupa de ginástica em surto com o tempo que um senhor de muita idade levava para pagar seus produtos no caixa do Zona Sul (Nota da Consumidora: um dos piores supermercados da face da terra, concorrente sério de um outro de Porto Alegre, aquele famoso pelos produtos vencidos e atendimento pouco amistoso), sempre com muitos clientes mais velhos nos apertados corredores de suas lojas cariocas.

A moça me olhou como quem diz, “não enche, tia”, e seguiu reclamando enquanto o velhinho procurava as moedas. Aliás, procurar moeda para facilitar o troco é sintoma de mais idade.

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Conselho aos mais novos: muita calma com o velhinho que trancar a fila do caixa porque não pesou as maçãs ou porque não se afoba para pagar. Se tudo der certo, um dia a gente também vai chegar lá.

Quer ver um que envelheceu mal? O espetacular Rodrigo Santoro, que virou um improvável Antônio Fagundes vestido de reizinho e maquiado como um maníaco por sol na novela Velho Chico. Ainda bem que, em certos casos, a vida pode ser muito mais generosa que a ficção.

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