Claudia Tajes: Mulher-Maravilha e outras maravilhosas

Só o fato de ser uma super-heroína em meio a tantos bombadões com a cueca por cima da roupa já fazia a gente a gostar dela

Foto: DC Comics, divulgação
Foto: DC Comics, divulgação

Eles eram mais musculosos, mais poderosos e eram a maioria. Seriados de TV estrelados por super-heróis dominavam os dias da minha infância, mas tanto eu quanto minhas irmãs e amigas gostávamos mesmo era dos poucos programas protagonizados por mulheres com superpoderes. Nem que fossem para o mal.

Começou, claro, com Jeannie É um Gênio, seriado produzido entre 1965 e 1970 – tempo que, para alguns, há de parecer tão distante quanto a Idade Média. Todo mundo conhece a história: um astronauta, o Major Nelson, cai em uma ilha deserta, abre uma garrafa e liberta a gênia Jeannie, que segue o novo amo até sua casa e, apaixonada por ele, causa confusão em cima de confusão. Só há pouco vim a saber que o seriado, criado pelo depois romancista best-seller Sidney Sheldon, foi encomendado para popularizar a Nasa, então pouco simpática aos norte-americanos. Dane-se a propaganda oficial, a Jeannie era o máximo. O seriado acabou quando a gênia e o astronauta casaram. Para os telespectadores, o encanto sumiu diante da rotina de um amor tranquilo.

A Feiticeira foi produzido entre 1964 e 1972. A bruxa boa Samantha, casada com o publicitário James, tentava não usar seus poderes para resolver os problemas da família com uma simples torcidinha de nariz. Mas quem conseguiria não apelar para a magia com um marido que vivia atrapalhado na profissão e na vida? No programa que chegou a ser o preferido das donas de casa, a força estava com as mulheres. A filha da Samantha era feiticeira, e o filho, mortal. Já a mãe dela era bruxa juramentada – que o diga o genro James.

Foto: reprodução

Foto: reprodução

E então, ah, então veio o velho Batman dos anos 1960, melhor seriado da história. Era engraçado, era diferente, era avançado demais para nós, criançada acostumada a ver programas de auditório com os pais nas noites de semana. Ninguém percebia as muitas leituras que depois se soube que o seriado tinha – acho que nem os adultos percebiam. Aquele Batman sem o menor sex appeal só parecia menos assexuado quando a Mulher-Gato irrompia no cenário. Interpretada pela atriz Julie Newmar, ela foi a mulher mais linda e a mais bem vestida da minha infância. Todas as meninas queriam ser a Mulher-Gato – nem sempre a gente se espelha em exemplos construtivos. A Batgirl, bondosa e bem-intencionada filha do comissário Gordon, perdia qualquer graça diante da inimiga. Um dia, em um episódio especialmente bom, a Mulher-Gato tomou leite lambendo direto do pires. Linda cena. Fui repetir na mesa de casa e levei um cascudo do meu pai. Nem sempre a arte consegue invadir a vida.

Muito depois, em 1975, surgiu a Mulher-Maravilha, uma amazona saída de alguma ilha perdida do Triângulo das Bermudas com um uniforme de bandeira dos Estados Unidos para derrotar o nazismo. Meio difícil de engolir, mas a gente engolia. Diferentemente da Jeannie e da Mulher-Gato, a Mulher-Maravilha nunca foi uma grande inspiração para as minhas brincadeiras e ambições estéticas. Mas só o fato de ser uma super-heroína em meio a tantos bombadões com a cueca por cima da roupa já ajudava a gostar dela.

Quando começaram as versões das histórias em quadrinhos no cinema, coube a mim acompanhar meu filho pequeno em todos os filmes de super-heróis possíveis e inimagináveis. Todos homens. Não dava para entender a razão de uma super-heroína não ganhar um filme só para ela. As coitadas apareciam sempre como coadjuvantes, integrando grupos ou na condição de ajudar, e até atrapalhar, os planos do super-herói principal. Olha este número: das mais de cem adaptações de quadrinhos de heróis da Marvel, da DC e de outras editoras, só três têm protagonistas femininas. E uma é a Mulher-Gato, que nem do bem é. As outras: Supergirl e Elektra, as três fracassos de bilheteria.

Agora, enfim, a Mulher- Maravilha estreou soberana nos cinemas, certo que para aproveitar os tempos de (palavra gasta) empoderamento que atravessamos. Mas justo quando foi-se a inocência? O único poder da Mulher-Maravilha que me interessa hoje é o de trocar de roupa enquanto gira bem louca e já sair de cabelo arrumado e cara pronta para o trabalho. Super-heroína versão 2017, e super-herói também, é quem mantém sua superforça apesar de todos os superpepinos da vida. Soltar raiozinhos e distribuir sopapos para prender bandidos que nem terão onde ficar presos, definitivamente, é coisa do passado.

Leia outras colunas de Claudia Tajes
:: Claudia Tajes: Nunca conheci um Joesley
:: Claudia Tajes: É proibido usar 46
:: Claudia Tajes: Autoajuda poética

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna