Claudia Tajes: as mulheres que sofrem todo dia com o ar-condicionado

Não, este não é o nome da nova novela do Manoel Carlos. Também não é um texto sobre a situação das mulheres em lugares onde elas não têm os seus mínimos direitos respeitados até por isso não ser motivo de piada. Não é uma petição que depois será enviada por e-mail para atolar a caixa postal dos viventes. Não é, muito menos, uma denúncia. Esta é só uma coluna sobre ar condicionado.

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Ar condicionado, essa maravilha dos dias atuais. Para quem mora em Porto Alegre e arredores, o jeito mais humano de sobreviver a temperaturas de micro-ondas. E isso que dezembro mal começou. Nem todo mundo tem um em casa e o bom e velho ventilador até que quebra o galho com valentia. Mas em estabelecimentos comerciais – sejam eles lojas, firmas, restaurantes, cafés, bares, cinemas, repartições e infinitos etcs – são essenciais. Uma montoeira de gente respirando no mesmo ambiente, mais os computadores liberando calor, e as máquinas todas, e o bafo que vem da rua a cada vez que a porta se abre, e pronto. O calor irrita, perturba, cansa. Sem ar condicionado, talvez clientes e atendentes se engalfinhassem pelo chão. Para prevenir esse tipo de estresse e melhorar as condições de sobrevivência, as empresas instalam um bom e potente ar central. E o tiozinho responsável por ligar o equipamento todas as manhãs, para bem cumprir com o seu dever, não deixa barato: bota logo o botão na graduação Sibéria.

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Refresca e até que cai bem

É aí que entram as mulheres que sofrem do título. Se é verdade que podem andar de vestido e sandália, barriga e costas de fora, colo exposto e braços ao léu, também é verdade que tal indumentária (ou a falta dela) deixa as gurias próximas de uma hipotermia no escritório. A Celia Ribeiro diria: não se mostra a barriga no ambiente profissional. Mas vai explicar isso para as jovens funcionárias que acompanharam a Miley Cyrus ficando mais pelada à medida em que crescia. Pouca roupa na firma é mais do que uma ofensa à etiqueta: é um atentado à saúde. Sei de uma menina que, de tanto desfilar sua sustância em trajes mínimos pelas salas e corredores, pegou uma pneumonia e ficou meses encostada no INSS. Acontece. A gente entende: os homens são obrigados a trabalhar de calça comprida, meia, sapato e, em muitos casos, gravata e casaco. Haja ar condicionado para refrescar uma armadura dessas. O que não se entende é por que eles não podem trabalhar com roupas mais leves. Quando o assunto é moda & etiqueta, os fracos e oprimidos são os homens.

00a83b21Axilas à prova de frio?

Já o ar condicionado nos ônibus é saudado por todos – e todas – como uma bênção. Mas uma bênção para poucos: fala-se em dez anos para equipar a frota inteira. Porto Alegre não é para os fracos.

Atualmente eu trabalho na cidade mais gelada do Brasil, o Rio de Janeiro. A explicação é simples. O Rio é um paraíso tropical para quem vai aproveitar as praias e passeios. Já a massa produtiva enfiada em salas e cubículos e auditórios e afins, essa vive submetida a temperaturas nunca superiores a quinze graus. A pele chega branca, morena, negra ou amarelinha, mas sai sempre roxa – em diferentes tonalidades. Carioca detesta passar calor, quer a sensação de morar na Islândia. Só pode. O jeito é não esquecer o casaco e ter sempre uma manta para enrolar nas pernas – tecnologia para manter os pés aquecidos que sempre usei em Porto Alegre. Quando as luzes do cinema se apagam e a friaca começa a pegar, pego uma boa meia atoalhada na bolsa e calço discretamente. Depois, é só tirar nos créditos finais. Às vezes dá errado, como na noite em que assisti a Boyhood. O filme é tão comovente, é tão bonito ver as transformações do tempo no menino e nos outros personagens e perceber que a vida é bem assim, não acontece nada e acontece tudo ao mesmo tempo, que nem lembrei da meia. Só fui me dar conta de que ainda usava o meu carpim em casa. Tudo bem. O pé estava quente e a alma, lavada. Mulheres que sofrem merecem o seu quinhão de felicidade.

00a83b22O coração sai quente do cinema

 

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