Claudia Tajes: Não me queixo mais de nada, juro. Nem para fazer piada

Foto: Pixabay
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Alguém me contou uma boa notícia relacionada a uma pessoa próxima, pessoa essa que vive sozinha e com muitas dificuldades, sempre às voltas com problemas de dinheiro, de saúde, de calotes, enfim, leva uma existência complicada, a tal pessoa. Falo bastante com ela, se não posso ajudar de perto, ao menos ouço e procuro sugerir algumas saídas. É o que dá para fazer. Fiquei feliz como se a boa nova tivesse a ver comigo. Nas horas seguintes, esperei por um telefonema da pessoa, que me liga várias vezes por semana para relatar de uma unha encravada a um pequeno furto, de uma gripe que não cura a um salário que não veio. O teor varia, mas é sempre péssimo. Até que não me aguentei. Achei que a pessoa contar uma vitória, para variar, faria bem a nós duas. Nada como começar o ano com a autoestima melhorzinha – e poder dividir isso.

Depois de muitos minutos de conversa, e de um interminável desfile de perrengues, desliguei. A pessoa simplesmente não falou uma palavra sobre a boa nova. Passou batido por uma notícia que, a menos que eu muito me engane, vai fazer com que o 2018 dela seja bem melhor, já que envolve trabalho e remuneração. Ou seja, paz e tranquilidade, se a gente botar na ponta do lápis. Quem passou 2017 se equilibrando para pagar as contas entenderá.

Meus ouvidos passaram o dia inconformados. Então, o papel deles é o de lata de lixo e mais nada? Na hora em que poderiam se alegrar com uma novidade animadora, são esquecidos? Já era noite quando não me aguentei e mandei uma mensagem: mas vem cá, não aconteceu isso e isso para ti? A resposta chegou bem mais tarde, breve como um pesar jamais será: sim!

Sim, um ponto de exclamação e nem mais uma palavra. Nem sequer uma carinha sorrindo. Fiquei pensando no meu histórico com ela. Quando as coisas estão mal, ou seja, sempre, a criatura narra tudo com riqueza de detalhes e conclui que não há o que fazer, que não há jeito a dar, que não há esperança à vista. Nem sempre estive sozinha nessa empreitada. Há dois anos, amigos que conheceram a tal pessoa em situação diferente conseguiram atendimento psicológico para ela. Aconteceu o mais ou menos esperado: ela não foi às consultas. No primeiro dia, o ônibus atrasou; no outro, não tinha guarda-chuva para enfrentar a tempestade, então errou o endereço etc, etc, etc. Muitos desistiram ali.

O pior é que também eu, ainda que em tom de queixa divertida, costumo enumerar infortúnios por aí. Depois desse episódio com a pessoa das minhas relações, essa que gasta o latim se lamentando, mas se economiza para dizer que há luz no fim do túnel, decidi mudar de atitude. Não me queixo mais de nada, juro. Nem para fazer piada. Ou talvez faça uma piadinha de vez em quando, mas sem estender demais. Ou talvez estenda um pouquinho, mas sem deixar a peteca cair. Ou talvez deixe a peteca cair, mas junte rapidinho. Prometo.

O ano já chegou chegando. Se a gente não tirar a nuvem particular de cima da cabeça, aí sim é que ele passa por cima mesmo. Força na peruca e vamos em frente.

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Recebi um e-mail curioso na semana passada a respeito da coluna “Mais amor, menos Gilmar”. Embora estivesse claro – claríssimo! – que o Gilmar em questão era o Mendes, um leitor, chamado Gilmar, ficou ofendido com o uso do nome. Publico aqui o e-mail dele. Acredito que outros cidadãos chamados Gilmar não ficaram brabos comigo. Mas se, por acaso, algum se sentiu atingido, já sabe: não tinha a ver com o nome, tinha a ver com o homem.

“Sou com muito orgulho Gilmar (meu pai, no ano de 1958, ano em que nasci, deu-me este nome em homenagem a um grande Gylmar). Detesto Gilmar Mendes talvez mais que você. Por mais que teu texto tenha endereço certo, generalizaste, mesmo que talvez não tenhas tido intenção. Mas ficou mal. Um pouquinho mais de sensibilidade ajuda a escrever um texto melhor.”

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