Claudia Tajes: Nesse ano eu vou…

O que preocupa não é o que a gente vai fazer em 2016: é o que a gente sequer vai começar. Não me refiro aqui a viagens maravilhosas, investimentos espetaculares, transformações de todos os tipos, progresso e desenvolvimento até por que, com a economia da China influenciando os preços do mercadinho da esquina, fica difícil apostar em muito progresso e desenvolvimento.

Uma das frases mais ouvidas a cada peru que é destroçado e a cada pernil que é derrubado nas famosas boas festas: no ano que vem vai ser diferente. No ano que vem eu prometo não exagerar na comilança. No ano que vem eu entro em forma. No meu caso, já nem digo mais nada. Assumi que neste ano, e no ano que vem e no próximo e em todos que testemunharem minha passagem por estas bandas, continuarei a destroçar perus e a derrubar pernis. Para contrabalançar, juro nunca mais matar a caminhada, a corrida, a ginástica ou seja lá o que for. Pensando bem, melhor tirar a parte do “juro”. E a do “nunca mais”, também.

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Na capítulo específico do corpo, a vontade de querer mudanças sem trabalhar por elas tem levado os humanos a inventos, no mínimo, curiosos. A cirurgia para ficar com barriga de tanquinho, por exemplo, tecnicamente chamada de LAD – Lipo de Alta Definição. Diz a propaganda de um cirurgião: “Para conseguir esse mesmo efeito de barriga sarada através da malhação, você precisaria se exercitar por anos em uma academia e, ao mesmo tempo, manter um nível de gordura corporal baixo”. E isso é ruim?

Mexendo nas gavetas para mais uma mudança, encontrei uma tirinha feita pelo meu filho quando ele tinha uns seis anos: um homem sempre sentado em uma cadeira acaba virando um homem-cadeira. Por via das dúvidas, guardei para não esquecer.

Outra frase ouvida no final de 2015: li muito menos do que deveria. Eu, com certeza, li muito menos do que deveria e não tenho certeza de que serei melhor em 2016. A boa notícia é que meu celular anda meio estragado e, menos ligada na vida dos outros, ando me reencontrando com as letrinhas. Posso sugerir um título? Homens sem Mulheres, sete contos do sensacional escritor japonês Haruki Muramaki com o mesmo tema: a solidão de homens abandonados por suas mulheres. Embora não estejam no presente dos personagens masculinos, são elas as grandes protagonistas do livro. Ausentes e inesquecíveis.

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Li muito menos do que deveria, mas tive a felicidade de terminar 2015 com uma releitura: Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, da Clarice Lispector. Uma revisita em muito influenciada pelo livro do José Pedro Goulart e do Paulo César Guedes, É Preciso Viver no Mundo da Lua – aliás, outra boa sugestão para começar o ano lendo bem. Diretamente da Clarice, um trecho com muitos e muitos significados.

“— Eu penso, interrompeu o homem e sua voz estava lenta e abafada porque ele estava sofrendo de vida e de amor, eu penso o seguinte:”

Sem a gravidade do ponto final ou a sequência da vírgula ou a indecisão das reticências ou a futilidade da exclamação ou a solidão da pergunta. Prefiro ficar com os dois pontos, de agora em diante. Quem sabe, assim:

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