Claudia Tajes: no submundo do computador

Em geral ela se chama quarentena ou indesejados, mas esgoto ou inferno seriam nomes bem apropriados. Trata-se daquela caixa de correio que recebe os spams, o xaropíssimo lixo eletrônico que nos chega às toneladas todos os dias. Há pouco, buscando um e-mail perdido, decidi investigar que tipo de lixo andava chegando ao meu computador. Foi como cair no nosso pobre Arroio Dilúvio, tal a quantidade de porcarias.

Campeões de envio, os e-mails com assuntos relativos a sexo eram incontáveis. Como o pessoal se preocupa com a vida sexual dos outros! Meu endereço deve estar em todas as listas de sex shops e tratamento para impotência da web. O mais surpreendente dos spams convidava para um teste de elenco de filme adulto – acho que abri com algumas décadas de atraso. E os títulos? Aumente seu amiguinho em 12 centímetros. Vai com tudo no de trás. Goze no seu ambiente de trabalho. Sua cama vai pegar fogo. A conta ideal: uma mulher e sete homens (sete?). Algo que eu não sei o que é, Ashley Madison, mandou centenas de mensagens disponibilizando homens casados e abertos a aventuras, convenientemente denominados “membros”: Claudia, diga alô para o membro 3427. Meu medo de pegar um vírus brabo foi tanto que deletei as promessas usando camisinhas nos dedos.

Também havia prêmios de loteria, casas e carros à minha espera. Mais de 20 milionários aguardavam para transferir suas fortunas para mim, bastava eu informar a minha conta. Um e-mail era tão singelo quanto insistente, enviado que foi umas 40 vezes: parabéns, você ganhou um moletom! Ação simpática de uma loja de Jundiaí, onde jamais estive, me reconhecendo como cliente fiel e pedindo que retirasse logo o meu presente.

Operadoras de telefonia, de TV a cabo, planos de saúde, consórcios, cartões de crédito, bancos, seguradoras, todos tinham para mim negócios imperdíveis que fiz questão de perder. Vários queriam limpar as minhas multas, tirar meu nome do SPC, emprestar dinheiro sem comprovação de renda e até me encaminhar para mestrados e doutorados. Uma assessoria de imprensa informava o minuto a minuto de uma atriz de quem nunca ouviremos falar. E as oportunidades imobiliárias? Entre um apartamento de andar inteiro com cinco vagas no Morumbi e uma sala comercial em Canoas, já sei onde não investirei o dinheiro que não sobrou.

Pior que os spams vêm por telefone também. Faz anos que meu número recebe, quase todos os dias, uma mensagem de texto cobrando a dívida de alguém que se chama Geneci. “Geneci, ainda não recebemos seu pagamento.” “Geneci, seu nome está sendo encaminhado para o Serasa.” “Geneci, este é seu último aviso antes da execução”. Agora começo a me preocupar, faz mais de uma semana que não chega nenhuma ameaça. Temo que tenham executado mesmo a(o) Geneci.

Quando o spam tem nome, endereço e exagera na insistência, pode acontecer de o destinatário perder a linha. Minha mãe morreu de câncer, mas o médico que a atendeu por um curto período não a removeu da lista de clientes (ele se referia assim) e passou a enviar novidades sobre tratamentos e cura para mim. Eu ligava para a clínica implorando para que me tirassem da lista, e nada. Um dia, lembro como se fosse hoje, estava no trabalho quando chegou o e-mail definitivo: agora ninguém mais vai morrer de câncer no pâncreas – justamente o da minha mãe. Larguei tudo, fui até a clínica e fiz um escarcéu na recepção. Nunca mais recebi nenhum e-mail deles.

Ah, se desse para fazer isso com todos os indesejados da vida.

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