Claudia Tajes: no tempo em que as mulheres queriam ser crespas

Esta não é uma coluna contra o cabelo crespo, nada disso. É apenas sobre uma curiosidade. Você, que nasceu ontem, há uns 30 anos, 20 ou nem isso. Você jamais poderia imaginar, mas houve uma época na terra em que o desejável não era ter cabelos lisos e longos, ou lisos, pelo menos: era ser crespa. Ou crespo, tal um Caetano Veloso jovem. Parece história inventada para consolar quem não veio ao mundo na mesma modalidade capilar da Angelina Jolie, mas é a mais pura verdade. O crespo já foi bem mais desejado e invejado que nos dias atuais. E, ao resto da humanidade, restava fazer permanente.

00a4b4fdBebel Gilberto: crespa e de disco novo

Permanente, nome dado à técnica de ondular os fios na marra à base de tioglicolato de amônia. Não tente fazer isso em casa. O troço é poderoso e deve ser aplicado por um profissional. No tempo do Epa, deixava um teimoso cheiro de ovo podre no cabelo, independente do número de vezes em que se lavasse o dito cujo. Não sei como é agora. Venho de uma família em que as moças, de cabelos finos e não muito abundantes, faziam permanente para dar mais volume e ajeitar os fios. Todas faziam. Minha avó Ione. Minha mãe. Talvez minhas primas. Minhas irmãs eram crespas pela própria natureza. Óbvio que sobrou para mim. E justamente no mais importante dia da minha até então curta existência. O dia do desfile da Mais Bela Flor do colégio.

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Era um concurso de beleza infantil daqueles em que a candidata, escolhida pelos colegas para representar a turma, saía desesperadamente a vender votos em busca do primeiro lugar da escola. Não havia júri, não exigia prática e nem habilidade. A coisa se decidia no vil metal. A criança mais abonada ou a que tivesse pais mais bem relacionados, vencia. Minha participação estava fadada ao fracasso. Quando cheguei em casa com os meus votos, meu pai proibiu de incomodar os vizinhos com as vendas. Disse que compraria um talão inteiro e nem mais um votinho. Só que um talão inteiro devia ter vinte cupons, se tanto. Tirei o último lugar entre as concorrentes. Meu pai realmente acreditava no mérito para alguém vencer na vida. Azar o meu.

00a4b4faQuando o cabelo é mais bonito que o futebol

Mas ainda não era tudo. Minha mãe me levou para fazer um permanente (segundo os sites especializados que consultei, usa-se no masculino) no instituto de uma senhora do prédio. Dona Antônia, se não me engano. Meu cabelo era comprido, fino e infantil como costumam ser os cabelos das meninas da quarta série do fundamental. Se hoje o líquido do permanente ainda é agressivo, imagino naquela era selvagem em que os produtos tinham menos controle – mas o leite, em compensação, não vinha com formol. O permanente quebrou meu cabelo todinho. As pontas ficaram não digo duplas, mas sêxtuplas. Quando batia o vento, e nem precisava ser o Minuano, o cabelo inflava como um boneco de posto de gasolina. No dia que deveria ser o da minha consagração, o do desfile da Mais Bela Flor, subi na passarela com vinte votos vendidos, um vestidinho emprestado e um exagero volumoso na cabeça. Peguei o apelido de Gal Costa. Dizem que toda criança é bonita. Se isso não se aplicava ao meu caso antes, depois do permanente virou um conceito inviável. São lembranças assim que garantem trabalho eterno aos psiquiatras, psicanalistas, psicólogos e todos os que mexem com o que nos transformou no que somos. As coisas que a gente viveu e que, por mais que passem os anos, continuam lá, em algum canto bem escuro. Permanentes.

00a4b4fcQue jamais alisem esse guri

Opinião que ninguém pediu. Em vez de ficar linchando a Patrícia, a menina que possivelmente terá que mudar de país por um momento de estupidez, por que não dar à ela uma pena que ajude a guria a pensar – e não apenas a repetir as grosserias da massa burra? Minha proposta é que a Patrícia seja obrigada a ler um livro por semana, com ficha de leitura preenchida e tudo. Que comece com o Machado de Assis, maior autor da literatura brasileira – e negro. Mas como essa não é uma proposta racista, que leia todos os autores que lhe caírem na mão, seja qual for a cor deles. Que a Patrícia tenha contato com ideias para poder formar as dela. E nunca mais cometa o crime que, por ignorância e juventude, muito de ambas, nem sabia estar cometendo. Foi feio o que ela fez? Foi horrível. Mas essa coisa de destruir a vida de uma pessoa de 23 anos para dar o exemplo para toda uma sociedade mal-educada é uma vergonha também.

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