Claudia Tajes: Nós, Daniel Blake

I, Daniel Blake | Divulgação
I, Daniel Blake | Divulgação

Aqui no Rio vou bastante a um cinema em Ipanema que é frequentado por muitas pessoas de idade, em qualquer filme ou sessão. E quando falo em idade, que ninguém pense em jovens de 60 anos, dispostos e bronzeados. São velhinhos e velhinhas mesmo, muitos de bengala, alguns de andador. Turmas de senhoras, talvez viúvas, tagarelando até a luz apagar – e, às vezes, também depois que ela apaga. Casais juntos há uma vida, amigos desde sempre, são várias as combinações nesse cinema em que me sinto um broto. E isso que não cozinho mais na terceira fervura.

Pois era esse o público às 19h de sábado passado para assistir a Eu, Daniel Blake, filme inglês sobre um homem de 59 anos que sofre um AVC e precisa se afastar do trabalho. Os médicos atestam que ele não pode mais exercer o ofício de carpinteiro, com o que a burocracia da assistência social não concorda. E lá vai Daniel procurar um emprego apenas para poder receber o auxílio financeiro mensal, sempre sob ameaças de corte.

Em uma palavra: imperdível | Foto: divulgação

Em uma palavra: imperdível | Foto: divulgação

Impressiona como tudo é de verdade no filme. A dificuldade do senhor Blake para preencher um formulário no computador. O desespero da mãe sozinha com dois filhos pequenos para alimentar. A falta de dinheiro obrigando a escolhas dolorosas. A impessoalidade dos funcionários, para quem Daniel e todos os outros que recorrem aos benefícios do governo são apenas incômodos a serem despachados. O diretor (de 80 anos), Ken Loach, filmou o que seu roteirista, Paul Laverty, escreveu depois de percorrer diferentes órgãos da burocracia inglesa. A crueldade não é inventada: ela existe. Ao final do filme, os velhinhos bateram palmas.

Bem quando os defensores das reformas da Previdência usam o chamado Primeiro Mundo como exemplo para implantar mudanças kafkanianas – e ainda que se entenda que algumas coisas podem ser atualizadas, cai um filme desses no nosso colo. Melhor hora, impossível. Disse a senhora ao meu lado para o marido, quando as luzes se acenderam revelando as caras de choro de uma sala inteira: eu me vi no Daniel Blake. Eu, o brotinho daquela sessão, também.

Minha jovem, prevejo problemas para você | Arquivo pessoal

Minha jovem, prevejo problemas para você | Arquivo pessoal

Sugestão de leitura: no romance O Tribunal da Quinta-Feira, o linchamento na rede social depois que trechos da correspondência particular de dois amigos são vazados pela ex-mulher de um deles. De Michel Laub pela Companhia das Letras.

Para quem já julgou e já foi julgado | Divulgação

Para quem já julgou e já foi julgado | Divulgação

E já tem amigos empreendendo nesse começo de 2017. O professor Cláudio Moreno avisa que restam poucos lugares para a quarta edição da viagem A Grécia dos Mitos e dos Deuses, onde as aulas acontecem em pleno habitat natural de Zeus, Hera & grande elenco. Informações na Porto Brasil Viagens pelo fone (51) 3025-2623 ou acosta@portobrasil.com.br. E o escritor Rubem Penz abre vagas para a oficina literária Santa Sede de Verão, um módulo intensivo de crônicas para iniciantes que já está começando. Inscrições pelo fone (51) 99123-5540 ou rubempenz@gmail.com.

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