Claudia Tajes: Casa de vó tem cheiro de bolo, de talco Alma de Flores e de Flit

Era batata. Tão logo a tarde caía, minha avó ia para uma despensa que ficava sob a escada, um quartinho estreito com tralhas variadas que me parecia assustador, e de lá saía com uma bomba de Flit na mão.

Esclarecimento ao leitor de uma geração mais recente: a bomba de Flit era um pulverizador de veneno. Um aparelhinho de lata com um reservatório para se colocar Flit ou Detefon, os dois venenos domésticos mais usados na época. Aí era só sair borrifando pela casa inteira para terminar com os mosquitos que seriam capazes de nos comer vivos durante a noite.

Depois de devidamente envenenados, digo, pulverizados, os quartos eram fechados até a hora em que crianças e adultos iam para a cama. Nessa ordem. Na casa da minha avó, os netos deitavam bem antes. Alguma conversa no quarto até era tolerável, mas não muito. Chegava o momento em que todo mundo era obrigado a ficar quieto, e então a gente se revirava no colchão sem a menor vontade de dormir. Lá de baixo, junto com o som da TV, vinha a sensação de que estávamos perdendo alguma coisa muito boa – o programa do Flávio Cavalcanti, talvez. Sensação essa que, ainda não dava para saber, se repetiria por muitas e muitas vezes ao longo da vida.

Não devia ser muito saudável respirar aquela quantidade de veneno pela noite inteira – sem falar que o cheiro continuava ativo de dia. Nas minhas lembranças olfativas, casa de vó tem cheiro de bolo, de talco Alma de Flores e de Flit. Não que eu conheça alguém da minha idade prejudicado pelas aplicações, mas que todo mundo hoje tem rinite ou outro tipo de alergia, isso tem. Se existe relação entre as coisas, minha completa ignorância não permite estabelecer.

Sobre dormir na casa da avó, o quarto que me cabia era o que tinha sido ocupado desde sempre pela bisa – que, inclusive, morreu de velhinha ali mesmo. Este era o problema. Aos seis ou sete anos de idade, como dormir na cama de uma senhora falecida? Bem melhor seria ficar no sensacional quarto do tio Aldo, que já morava sozinho, e fuçar nas gavetas onde ainda se podia encontrar um desenho feito por ele, uma letra de música ou o bilhete para alguma menina. Eu nunca ganhava o sorteio para o quarto do tio. Fritando na cama sem pegar no sono, tinha certeza de que a bisa morta surgiria ao meu lado.

Outro veneno famoso foi o Neocid em pó da latinha amarela, um clássico para matar os piolhos que iam da escola para casa com os alunos. E como se pegava piolho. Volta e meia, um bilhete na mochila avisava de infestação na área. Por causa do controle quase paranoico da minha mãe, com inspeções dignas de um órgão de fiscalização incorruptível, só peguei piolho uma vez. E que vez. Primeiro a gente ficava grisalho de tanto Neocid, então o pente fino recolhia os cadáveres e as lêndeas, aí o cabelo era lavado com água bem quente e depois ainda recebia uma infusão fedorenta de fumo que ficava fermentando sob um lenço. O couro cabeludo ardia, não sei como não fiquei careca. Se hoje os remédios são atóxicos e inodoros, naqueles tempos selvagens o piolhento exalava o cheiro do tratamento e não ficava anônimo jamais.

Mas não foi só aos venenos que nós sobrevivemos. Crianças andavam de carro sem cinto de segurança e, sempre que deixavam, no banco da frente. Suprema deferência era ser o agraciado com o lugar do carona. Os pequenos eram colocados entre o motorista e o volante para terem a impressão de “dirigir”. Bebês iam no colo, soltinhos dentro de seus cueiros. A impressão é a de que tudo isso aconteceu em alguma época remota, mas que nada. O cinto de segurança só se tornou obrigatório em 1997.

De tudo o que se fazia sem medo, o que mais me espanta agora é a naturalidade com que andávamos pelas ruas da cidade em qualquer horário. Eu saía da faculdade pelas onze da noite, esperava na parada sozinha e subia uma escada de pedra que levava ao Sétimo Céu, na Zona Sul, sem que meus pais se preocupassem muito. A volta das festas era a pé ou de ônibus. E, em dias de plantão no trabalho, atravessava Porto Alegre de lotação. Parece mentira, mas era tranquilo. Sem nostalgia, mas bons tempos em que a maior ameaça do cotidiano era a bomba de Flit ao entardecer.

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